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NEIL POSTMAN: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESAPARECIMENTO DA INFÂNCIA. Ou, sobre o eterno retorno de uma ideia. (resenha)

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  Por. Marco Rodrigues I. Dados Biográficos O início de qualquer resenha merece, antes de tudo, um breve esboço biográfico do autor analisado. No caso específico desta obra, Neil Postman pode ser considerado um daqueles pensadores que Friedrich Nietzsche chamou de "homens póstumos", isto é, indivíduos que parecem nascer fora de sua época e conseguem enxergar além das aparências de seu tempo. Postman foi professor da Universidade de Nova York e autor de mais de vinte livros. Entre suas obras mais conhecidas destacam-se O Desaparecimento da Infância e O Fim da Educação: Redefinindo o Valor da Escola. Seus escritos abordam, sobretudo, a relação entre tecnologia, comunicação e cultura, examinando os impactos dos meios tecnológicos na formação humana e nas instituições sociais. Em O Fim da Educação, por exemplo, o autor analisa os efeitos da crescente devoção da sociedade norte-americana à tecnologia, ao utilitarismo e ao consumo. Essa mesma preocupação está presente em O Desapare...

A cegueira em Saramago

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Por: Marco Rodrigues.  “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” — Livro dos Conselhos. José Saramago.  “Estou cego!” O grito desesperado ecoa no meio da cidade. Um homem, parado diante do trânsito apressado, já não consegue enxergar os carros, as pessoas, as ruas. Mas não se trata de uma cegueira comum. Não há escuridão. O que ele vê é um branco intenso, leitoso, absoluto. Uma cegueira branca. José Saramago sabia que esta não era apenas uma doença física. Em Ensaio sobre a Cegueira, a perda da visão torna-se metáfora da própria condição humana. A cidade segue seu ritmo frenético. Os sinais abrem e fecham rapidamente. Os pedestres atravessam as ruas com ansiedade. Os motoristas aceleram impacientes, como se o tempo lhes escapasse pelas mãos. Em meio ao caos urbano, um carro permanece parado no cruzamento, imóvel como a pedra de Carlos Drummond de Andrade no meio do caminho. As buzinas começam a soar. As pessoas irritam-se. Ninguém deseja compreender o que acontece; querem ap...

A razão fascista.

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  Marcha integralista no Rio de Janeiro, em 1937 Crédito: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Marco Rodrigues I  Desde as reformas de base pensadas no início dos anos 60, nosso país perdeu o rumo daquela esperança inicialmente sonhada e caminhou a passos largos para um obscurantismo sem fim. Não se tratava obviamente de um horizonte revolucionário, porém, era um interessante momento da nossa rica cultura brasileira. Cinema, teatro, música, literatura, artes e humanidades em geral, todos, em grande medida, pensando um projeto de Brasil a partir de suas áreas de conhecimento. Mas isso não durou muito, houve um brutal rompimento com o advento da ditadura militar e no lugar desta rica cultura, surgiu a tal cultura de massa decadente e sobretudo, alienante. Tais elementos formaram uma geração de homens e mulheres, cujo resultado é muito perceptível nos dias de hoje. Afinal foram 21 anos de ditadura militar, de sonhos interrompidos, retrocessos, desintelectualização, desapar...

Saber e experiência. Notas.

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  Benjamin Franklin, em 1 de outubro de 1752, auxiliado por seu filho William,[1] realizando a experiência da pipa. Atualmente, as informações circulam em uma velocidade tão intensa que já não necessitamos da televisão para tomar conhecimento dos fatos. As novas tecnologias nos oferecem uma suposta liberdade de escolha sobre aquilo em que acreditar. No entanto, esse excesso informacional, quando não é organizado e criticamente assimilado, transforma nossas mentes em verdadeiros depósitos de dados fragmentados e, muitas vezes, inúteis. Eis a chamada sociedade da informação: um fluxo incessante de fatos, discursos, imagens, boatos e conteúdos efêmeros que nos atravessam a todo instante. Contudo, na mesma proporção em que cresce o volume de informações, diminui a capacidade de elaboração da experiência. A rapidez com que tudo se transmite produz um efeito profundo: a ruptura do elo entre passado, presente e futuro. Uma vez rompida essa continuidade, o saber historicamente acumulado pe...

O mito da razão única

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Por: Marco Rodrgues Um fenômeno silencioso, porém profundamente perigoso, vem ocorrendo há tempos na chamada sociedade da informação: a difusão das ideias sob a ótica da razão única. Poucos percebem esse processo, embora seus efeitos sejam cada vez mais visíveis. Mas o que significa, afinal, a razão única? Trata-se da construção e da circulação de uma única interpretação dos fatos — especialmente no campo político — cuja finalidade não é o debate, mas o convencimento a qualquer preço, isto é, fazer com que toda posição divergente seja percebida como errada, ilegítima ou irracional. O perigo imediato dessa lógica é o autoritarismo. A história oferece exemplos eloquentes. Governos que se sustentaram sobre o mito da razão única — como a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini — difundiram sistematicamente à população a crença de que o fascismo e o nazismo eram regimes benéficos, apresentados como soluções para os males sociais. Para que tal construção fosse possível, o engano, a distor...

Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela

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  “ Doutrina Monroe”: Cartoon de WA Rogers mostra potentados europeus observando o poderio naval americano, em torno de 1904. Do New York Herald. Sem data (Fonte: BBC) “ Em qual mentira vou acreditar?” (Racionais MC’s) Por: Marco Rodrigues Vivemos um momento histórico em que a barbárie deixou de ser exceção para tornar-se método. No caso da Venezuela, este processo revela-se de maneira exemplar daquilo que Marx chamou de falsa consciência: uma forma de percepção da realidade produzida socialmente, funcional à manutenção da ordem dominante e naturalizada no cotidiano. Desde as sucessivas tentativas de deslegitimação do governo da República Bolivariana, promovidas pelos Estados Unidos por meio de sanções, bloqueios econômicos, pressões diplomáticas e operações de guerra híbrida, observa-se um fenômeno que precisa ser analisado: parcelas significativas da população — incluindo venezuelanos dentro e fora do país e setores da extrema-direita latino-americana — passaram a celebrar medida...

ADOECIMENTO CAPITAL

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O Brasil é um dos países que mais consomem tarja preta no mundo. Por: Marco Rodrigues I Em tempos de um capitalismo de mãos dadas com o fascismo, há um debate que precisa ser analisado à luz do materialismo dialético. O aumento significativo do uso de medicamentos de tarja preta. Portanto, analisemos o seguinte número: o Brasil vende cerca de 123 mil caixas de medicamentos tarja preta por dia. O que significa vender tanto remédio em uma sociedade que, paradoxalmente, padece de inúmeros males sociais, políticos, psíquicos e, sobretudo, culturais? Seria essa medicalização uma solução fast food para problemas muito mais profundos?  Como se vê, além da expansão do capitalismo e da mercantilização das doenças — temos agora uma expansão exponencial, e muitas vezes alienante, do consumo de tarja preta. É por essa razão que trago metaforicamente Pedro Bandeira e sua ideia de droga da obediência para este diálogo. Poius há uma hipótese séria que precisa ser posta: seria a indúst...