NEIL POSTMAN: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESAPARECIMENTO DA INFÂNCIA. Ou, sobre o eterno retorno de uma ideia. (resenha)

 


Por. Marco Rodrigues

I. Dados Biográficos

O início de qualquer resenha merece, antes de tudo, um breve esboço biográfico do autor analisado. No caso específico desta obra, Neil Postman pode ser considerado um daqueles pensadores que Friedrich Nietzsche chamou de "homens póstumos", isto é, indivíduos que parecem nascer fora de sua época e conseguem enxergar além das aparências de seu tempo.

Postman foi professor da Universidade de Nova York e autor de mais de vinte livros. Entre suas obras mais conhecidas destacam-se O Desaparecimento da Infância e O Fim da Educação: Redefinindo o Valor da Escola. Seus escritos abordam, sobretudo, a relação entre tecnologia, comunicação e cultura, examinando os impactos dos meios tecnológicos na formação humana e nas instituições sociais.

Em O Fim da Educação, por exemplo, o autor analisa os efeitos da crescente devoção da sociedade norte-americana à tecnologia, ao utilitarismo e ao consumo. Essa mesma preocupação está presente em O Desaparecimento da Infância, obra na qual investiga como as transformações nos meios de comunicação alteraram a maneira pela qual a sociedade compreende a infância.

II. Uma tese muito atual

Postman inicia sua obra apresentando uma contextualização histórica da noção de infância. Seu percurso começa na Antiguidade, especialmente entre os gregos, período sobre o qual existem poucas informações específicas acerca da experiência infantil. O autor observa que práticas como o infanticídio eram socialmente toleradas em determinadas circunstâncias, indicando que a ideia de infância não possuía a mesma centralidade que possui nas sociedades contemporâneas.

Como exemplo, menciona um relato de Heródoto segundo o qual dez homens foram encarregados de matar uma criança porque um oráculo havia previsto que ela destruiria uma cidade quando adulta. Ao chegarem à residência da família e tomarem a criança nos braços, esta sorriu para eles, levando-os a desistir da execução.

Entretanto, apesar da existência de práticas que hoje consideramos bárbaras, os gregos valorizavam profundamente a educação. Em A República, Platão demonstra grande preocupação com a formação moral e intelectual dos indivíduos, revelando uma das primeiras reflexões sistemáticas sobre o desenvolvimento dos jovens.

Durante a Idade Média, compreendida entre os séculos V e XV, ocorreu uma transformação significativa. Se no mundo greco-romano a leitura, a escrita e a educação formal desempenhavam papel importante, as mudanças decorrentes da queda do Império Romano contribuíram para o declínio dessas práticas. A alfabetização tornou-se privilégio de uma pequena elite formada principalmente por membros do clero e da nobreza, enquanto a maior parte da população permaneceu analfabeta.

Segundo Postman, nesse contexto não havia uma distinção clara entre o universo infantil e o universo adulto. As crianças eram frequentemente tratadas como pequenos adultos e participavam dos mesmos ambientes, trabalhos e experiências que os mais velhos. Essa situação começou a mudar apenas com o advento da Modernidade, quando o chamado processo civilizador passou a exigir maior controle dos impulsos, especialmente daqueles relacionados à sexualidade, além de comportamentos mais reservados diante dos jovens.

O autor afirma que o primeiro livro voltado especificamente para crianças foi publicado em 1544. Contudo, apenas cerca de dois séculos depois consolidou-se a ideia de que as crianças constituíam um grupo social distinto, necessitando de proteção, educação específica e acompanhamento durante seu desenvolvimento.

A questão central levantada por Postman é profunda: como estabelecer os limites entre o mundo infantil e o mundo adulto? Para responder a essa pergunta, ele argumenta que o principal critério não é biológico, mas sim, cultural. Nesse ponto, sua reflexão aproxima-se de autores fundamentais da filosofia da educação moderna.

John Locke, em Some Thoughts Concerning Education (1693), defendia a importância da formação moral e intelectual das crianças, da disciplina, dos hábitos e da experiência como fundamento do aprendizado. Em An Essay Concerning Human Understanding (1689), desenvolveu a famosa ideia da mente como uma tábula rasa, sustentando que o conhecimento não deriva de ideias inatas, mas da experiência. Essa concepção influenciou profundamente a pedagogia moderna e continua presente em grande parte do imaginário educacional contemporâneo.

Por sua vez, Jean-Jacques Rousseau, em Emílio, ou Da Educação (1762), argumentava que a criança deveria ser educada de acordo com as etapas naturais de seu desenvolvimento. Para ele, a educação deveria respeitar a natureza infantil, favorecendo a descoberta, a experiência e a autonomia, em vez de tratar a criança como um adulto em miniatura. Sua célebre afirmação — “Tudo é bom ao sair das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem” — sintetiza a defesa de uma formação que preserve a espontaneidade da infância.

As concepções de Locke e Rousseau contribuíram para consolidar a ideia moderna de infância como uma etapa específica do desenvolvimento humano. Enquanto em Loke, a ideia da adição é importante, ou seja, preencher esta tábua rasa, em Rousseau, o que vemos é o sentido oposto, trata-se de um processo de subtração, onde deve-se respeitar os momentos da criança e livrá-las dos vícios dos adultos. 

Diante do debate, nota-se que a infância não é uma condição determinada exclusivamente pela biologia, mas uma construção cultural produzida pelas formas de organização social e pelos modos de transmissão do conhecimento. A existência da infância depende da separação entre aquilo que os adultos sabem e aquilo que as crianças ainda precisam aprender.

Mudanças decisivas ocorreram durante a transição da Idade Média para a Modernidade. A invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, por volta de 1450, transformou radicalmente a circulação do conhecimento. A leitura passou a ocupar um papel central na vida social, criando uma barreira entre aqueles que dominavam a cultura escrita e aqueles que ainda estavam aprendendo. A infância tornou-se, então, um período de preparação para o ingresso no universo adulto.

Percebe-se, assim, que Postman concebe a infância de maneira semelhante ao aprendizado da linguagem. Embora exista uma base biológica para o desenvolvimento infantil, ela não é suficiente para explicá-lo integralmente. Aprender uma língua depende da inserção em um universo simbólico compartilhado e da aquisição gradual de competências culturais. O mesmo ocorre com a infância, que exige a assimilação progressiva dos conhecimentos e códigos próprios da vida adulta.

É justamente por essa razão que o autor considera os meios de comunicação modernos um fator decisivo para o enfraquecimento da infância. Em uma cultura baseada na escrita, o acesso ao conhecimento adulto exigia anos de alfabetização e aprendizado. Já os meios audiovisuais, especialmente a televisão, eliminam grande parte dessas barreiras, permitindo que crianças tenham acesso imediato a conteúdos anteriormente reservados aos adultos. Como consequência, as fronteiras entre infância e vida adulta tornam-se cada vez mais tênues, fenômeno que Postman denomina de “desaparecimento da infância”.

O autor também destaca o papel das tecnologias de comunicação à distância nesse processo. Um marco importante foi a primeira transmissão telegráfica realizada por Samuel Morse em 24 de maio de 1844. A partir desse momento, a circulação da informação tornou-se progressivamente mais rápida e acessível, transformando as formas tradicionais de transmissão do conhecimento e contribuindo para a erosão das fronteiras culturais entre gerações.

Após esse diagnóstico histórico, Postman dedica grande parte da obra à análise dos impactos da televisão. Segundo ele, a televisão rompe as barreiras que durante séculos separaram o universo infantil do universo adulto, uma vez que possibilita o acesso imediato a informações, imagens e conteúdos que anteriormente exigiam anos de aprendizagem para serem compreendidos. Além disso, o autor procura demonstrar como esse processo afeta tanto a formação da subjetividade infantil quanto a vida adulta, produzindo uma cultura marcada pela superficialidade e pela redução da capacidade crítica.

Nesse aspecto, suas reflexões dialogam indiretamente com as críticas formuladas por Theodor Adorno à indústria cultural. Embora Postman não desenvolva uma teoria semelhante à de Adorno, ambos compartilham a preocupação com os efeitos culturais dos meios de comunicação de massa e com a possibilidade de enfraquecimento da formação crítica dos indivíduos.

Mesmo décadas após sua publicação, O Desaparecimento da Infância permanece uma obra extremamente atual. Se a televisão era a principal preocupação e objeto de crítica de Postman nos anos 1980, hoje a internet, os smartphones e as redes sociais ampliaram ainda mais o acesso imediato à informação. Crianças e adolescentes circulam por espaços digitais nos quais conteúdos antes restritos ao universo adulto estão disponíveis de forma permanente e instantânea. Contribuindo para a expansão daquilo que Adorno chamou de semi formação do indivíduo e reafirmando as teses de Postman. 

A atualidade de suas teses, de reorganizar a cultura, transformar as relações sociais e redefiner as formas pelas quais compreendemos a infância, a educação e a própria condição humana, trata-se de uma obra indispensável para aqueles que desejam compreender os desafios educacionais e culturais do mundo contemporâneo.





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