O mito da razão única
Por: Marco Rodrgues
Um fenômeno silencioso, porém profundamente perigoso, vem ocorrendo há tempos na chamada sociedade da informação: a difusão das ideias sob a ótica da razão única. Poucos percebem esse processo, embora seus efeitos sejam cada vez mais visíveis.
Mas o que significa, afinal, a razão única?
Trata-se da construção e da circulação de uma única interpretação dos fatos — especialmente no campo político — cuja finalidade não é o debate, mas o convencimento a qualquer preço, isto é, fazer com que toda posição divergente seja percebida como errada, ilegítima ou irracional.
O perigo imediato dessa lógica é o autoritarismo.
A história oferece exemplos eloquentes. Governos que se sustentaram sobre o mito da razão única — como a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini — difundiram sistematicamente à população a crença de que o fascismo e o nazismo eram regimes benéficos, apresentados como soluções para os males sociais. Para que tal construção fosse possível, o engano, a distorção e a manipulação dos fatos tornaram-se instrumentos políticos cotidianos.
Enganar era preciso para convencer.
No caso brasileiro, observa-se, ainda que de forma mais sutil, um movimento semelhante. Parte significativa da mídia, ao adotar posicionamentos políticos explícitos, passa a difundir narrativas simplificadoras: atribui a culpa dos problemas nacionais a determinados agentes e apresenta como única saída possível uma suposta “mudança”, cuidadosamente moldada pelos próprios interesses editoriais.
Este é o verdadeiro perigo: o caminhar lento e quase imperceptível em direção ao autoritarismo, que destrói, antes de tudo, as liberdades existentes — mesmo que tais liberdades sejam, em muitos casos, frutos de concessões históricas e ilusões políticas construídas ao longo do tempo. Ainda assim, é fundamental preservar o mínimo de pluralidade, pois é essa diferença que mantém viva qualquer aparência de sociedade democrática.
Entretanto, o mito da razão única não se restringe à esfera política. Ele se infiltra com igual força em outros campos da vida social.
Na educação, por exemplo, essa lógica se manifesta quando se tenta impor aos professores uma suposta “didática correta”, transmitida como verdade absoluta pelos centros universitários. Tal concepção ignora a realidade concreta da prática docente. A teoria ensinada e a experiência cotidiana em sala de aula, muitas vezes, não apenas divergem — entram em contradição. Eis a essência do mito.
Na filosofia, o fenômeno repete-se. Formam-se professores não para filosofar, mas para comentar filósofos. No entanto, como nos advertiu Kant, não se aprende filosofia; aprende-se a filosofar. No Brasil, a cultura acadêmica consolidou uma prática em que a repetição exegética de textos europeus ocupa lugar central, enquanto o pensamento sobre os problemas da própria realidade brasileira permanece marginal. A filosofia europeia é tratada como superior não por sua essência, mas por sua difusão e legitimação institucional.
Com isso, ignoram-se outras perspectivas, outros saberes e outras formas de interpretar o mundo, difundindo-se, de maneira quase automática, uma única racionalidade que reduz a complexidade da realidade a um único ponto de vista autorizado.
Maurício Tragtenberg sintetizou essa crítica de forma contundente em A delinquência acadêmica: o poder sem saber e o saber sem poder, ao mostrar como somos continuamente inculcados por saberes que não oferecem alternativas de interpretação, mas reproduzem estruturas de dominação intelectual.
Ironicamente, vivemos na chamada “sociedade do conhecimento”, mas grande parte dos saberes que circulam são exatamente aqueles que se mantêm em voga por sua eficácia ideológica, não por sua capacidade de ampliar o horizonte crítico. A ausência da busca por outros saberes revela a profundidade dessa crise.
Mais do que nunca, é necessário olhar os dois lados da moeda — e, sobretudo, desconfiar daqueles que tentam, a qualquer custo, nos convencer de que apenas um lado está certo.

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