Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela
“Em qual mentira vou acreditar?” (Racionais MC’s)
Por: Marco Rodrigues
Vivemos um momento histórico em que a barbárie deixou de ser exceção para tornar-se método. No caso da Venezuela, este processo revela-se de maneira exemplar daquilo que Marx chamou de falsa consciência: uma forma de percepção da realidade produzida socialmente, funcional à manutenção da ordem dominante e naturalizada no cotidiano.
Desde as sucessivas tentativas de deslegitimação do governo da República Bolivariana, promovidas pelos Estados Unidos por meio de sanções, bloqueios econômicos, pressões diplomáticas e operações de guerra híbrida, observa-se um fenômeno que precisa ser analisado: parcelas significativas da população — incluindo venezuelanos dentro e fora do país e setores da extrema-direita latino-americana — passaram a celebrar medidas que, na prática, aprofundam o avanço da barbárie, do sofrimento social e principalmente, a perda de soberania nacional.
Quando é observado tais manifestações em defesa da barbárie e o avanço de tais discursos, o que se perde de vista, ao não se analisar a totalidade, é aquilo que efetivamente está em jogo: a disputa pelos recursos estratégicos da Venezuela e a permanência de uma lógica imperialista e colonial que estrutura as relações internacionais do capitalismo contemporâneo.
Eduardo Galeano já advertia, em sua magistral obra As veias abertas da América Latina:
“Quanto mais liberdade se concede aos negócios, mais cárceres precisam ser construídos para aqueles que padecem com os negócios.”
Essa fórmula se renova hoje cada vez mais com os governos da extrema direita e sua venda total aos interesses da burguesia. Com isso, exige a produção incessante de uma espécie de consenso. Ainda que de maneira forçada, sob várias formas e operada por seus aparelhos ideológicos: meios de comunicação, igrejas, sistemas educacionais e, cada vez mais, as redes digitais. Produzem-se, assim, as ideias da classe dominante, reproduzidas precisamente por aqueles que não pertencem a ela, mas que passam a defendê-la como se fossem suas.
O resultado é uma espécie de pedagogia da barbárie: um processo de formação permanente de consciências moldadas para aceitar como natural a própria exploração.
É neste terreno que se movem hoje as esquerdas. Lutam contra formas sofisticadas de colonização simbólica, contra a naturalização da desigualdade, contra o avanço da barbárie — mas enfrentam um adversário que atua vinte e quatro horas por dia na formação das subjetividades desde a mais tenra infância.
Vladimir Safatle chama atenção para um aspecto central desse processo: a racionalidade própria da lógica fascista. Figuras como Trump, Netanyahu ou Viktor Orbán não operam por irracionalidade; oferecem uma leitura realista ao dizerem: não há espaço para todos. O projeto de inclusão oferecido pelas esquerdas falhou. Embora tal leitura seja fragmentada e distorcida da realidade. É justamente por isso que se torna eficaz.
Se, como afirma Mikhail Bakhtin, todo signo é ideológico, então as manifestações da extrema-direita e de seus adeptos não são aberrações individuais, mas expressões orgânicas de uma disputa profunda pelo sentido da realidade e com o avanço das redes digitais, essa pedagogia vem ganhando com o passar dos dias cada vez mais espaço na sociedade.
No caso venezuelano, a contradição torna-se ainda mais evidente. Como observam os pesquisadores e professores Marcos Antônio da Silva e Anatólio Medeiros Arce, a Revolução Bolivariana, iniciada com Hugo Chávez em 1999, representou uma ruptura histórica ao propor um novo projeto de Estado nacional, dando continuidade ao legado de Simón Bolívar.
Entretanto, são precisamente os antigos detentores do poder econômico que continuam controlando grande parte da produção simbólica e informacional e continuam as tentativas de desestabilizar o país de inúmeras formas. Principalmente em termos econômicos e subjetivos. Afinal de contas, a economia, em certo sentido, atinge as subjetividades.
A situação atinge um grau ainda mais grave quando governadores e lideranças da extrema-direita latino-americana passam a apoiar abertamente as ações de cerco, bloqueio e desestabilização, e principalmente, o apoio à invasão e sequestro do presidente da Venezuela, revelando aquilo que deve ser enfrentado politicamente no próximo período histórico.
A banalidade do mal espalhado entre nós.
O episódio venezuelano, portanto, não é um acontecimento isolado. É um prelúdio histórico em que nós Brasileiros devemos estar atentos.
Marco Rodrigues é doutor em Educação pela Emil Brunner World University (Eua). É professor e autor de vários livros.

Comentários
Postar um comentário