Saber e experiência. Notas.

 

Benjamin Franklin, em 1 de outubro de 1752, auxiliado por seu filho William,[1] realizando a experiência da pipa.


Atualmente, as informações circulam em uma velocidade tão intensa que já não necessitamos da televisão para tomar conhecimento dos fatos. As novas tecnologias nos oferecem uma suposta liberdade de escolha sobre aquilo em que acreditar. No entanto, esse excesso informacional, quando não é organizado e criticamente assimilado, transforma nossas mentes em verdadeiros depósitos de dados fragmentados e, muitas vezes, inúteis.

Eis a chamada sociedade da informação: um fluxo incessante de fatos, discursos, imagens, boatos e conteúdos efêmeros que nos atravessam a todo instante. Contudo, na mesma proporção em que cresce o volume de informações, diminui a capacidade de elaboração da experiência. A rapidez com que tudo se transmite produz um efeito profundo: a ruptura do elo entre passado, presente e futuro. Uma vez rompida essa continuidade, o saber historicamente acumulado perde sua função formadora e é relegado ao esquecimento.

A sabedoria dos antigos, antes transmitida por meio da narrativa e da experiência, já não encontra ouvintes. Não há tempo para histórias, não há tempo para escutar. Como já indicava Marx, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”: a velocidade dissolve a permanência, produzindo uma realidade marcada pelo efêmero, pelo transitório e, sobretudo, pela pobreza de experiência.

Nessas condições, nossas consciências tornam-se um amontoado de informações. A informação, por sua própria natureza, é instantânea: ela comunica, mas não transforma. Seu papel limita-se a noticiar; carece da potência formativa própria da experiência. O saber, ao contrário, implica um processo de busca, reflexão e elaboração que pode conduzir à sabedoria. Somente a experiência — aquilo que verdadeiramente nos atravessa, nos marca e nos transforma — é capaz de produzir esse tipo de conhecimento.

As experiências são acontecimentos que deixam vestígios, que geram sentido, que ensinam. Mas que tipo de experiência os tempos fugazes nos oferecem? Em um mundo saturado de estímulos, distrações e entretenimentos, o cansaço cotidiano empurra os indivíduos para formas imediatas de alívio: plataformas de streaming, narrativas prontas, romances idealizados, ainda que se saiba tratar-se de uma ilusão momentânea. São mecanismos de compensação que, longe de produzir experiência, reforçam a anestesia sensível.

Instala-se, assim, uma condição paradoxal: nunca houve tanto acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, nunca se experimentou tão pouco. Falta tempo para sentir, para digerir, para permitir que o próprio tempo revele o sentido daquilo que foi vivido. A experiência exige pausa, suspensão do juízo, escuta, atenção, sofrimento e elaboração.

Na contemporaneidade, contudo, predomina uma concepção empobrecida de experiência, frequentemente reduzida ao simples fato de ter vivido algo, sem reflexão ou extração de sentido. A subjetividade é sufocada por uma racionalidade técnica, utilitarista e mercantil, que transforma o conhecimento em mera ferramenta de troca e produtividade. Como ironizou Raul Seixas, somos estimulados a ter “opinião formada sobre tudo”, sem que isso produza catarse, transformação ou amadurecimento.

Vivemos, portanto, sob um regime de opiniões rápidas, juízos instantâneos e esquecimentos sucessivos. Passamos de uma informação à outra, de uma convicção à seguinte, sem que algo verdadeiramente nos aconteça.

Diante disso, impõem-se algumas perguntas: quais saberes de experiência foram, de fato, adquiridos ao longo da vida? Em que momentos uma palavra, um acontecimento ou uma situação inicialmente incompreensível revelou, com o tempo, seu sentido mais profundo? Que aprendizagens não cabem em dados, mas se inscrevem na própria existência?

Responder a essas questões é resgatar a experiência como núcleo da formação de si e restabelecer a dialética entre passado, presente e futuro — condição primordial para o conhecimento de si mesmo.

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