A razão fascista.

 


Marcha integralista no Rio de Janeiro, em 1937 Crédito: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Marco Rodrigues

Desde as reformas de base pensadas no início dos anos 60, nosso país perdeu o rumo daquela esperança inicialmente sonhada e caminhou a passos largos para um obscurantismo sem fim. Não se tratava obviamente de um horizonte revolucionário, porém, era um interessante momento da nossa rica cultura brasileira. Cinema, teatro, música, literatura, artes e humanidades em geral, todos, em grande medida, pensando um projeto de Brasil a partir de suas áreas de conhecimento. Mas isso não durou muito, houve um brutal rompimento com o advento da ditadura militar e no lugar desta rica cultura, surgiu a tal cultura de massa decadente e sobretudo, alienante. Tais elementos formaram uma geração de homens e mulheres, cujo resultado é muito perceptível nos dias de hoje. Afinal foram 21 anos de ditadura militar, de sonhos interrompidos, retrocessos, desintelectualização, desaparecimentos, mortes e inserção de uma ideologia que corre a todo vapor: um suposto conservadorismo que defende a todo custo o capital, e para piorar acena, com pitadas de um fascismo moral, exigem comportamentos corretos dos homens e mulheres. Somado a isso, convém colocar a questão colocada por Paulo Arantes em seu livro O novo tempo do mundo: “tudo somado, o que resta afinal da ditadura? Na resposta francamente atravessada do psicanalista Tales Ab’Saber, simplesmente tudo.’’ 


Se analisarmos atentamente o que vem ocorrendo desde e sobretudo, o avanço da extrema direita aqui nestes trópicos, veremos que este tudo proposto por Ab’Saber está francamente em acesso. A memória histórica, e nem precisa ir tão longe assim. De todos os criminosos brasileiros da ditadura militar, quem foi preso? E como aqui a história se repete, as mesmas ideologias fantasmagóricas estão a pleno vapor nas ruas. Como se estivéssemos em 1964, vemos senhoras e senhores pedindo intervenção militar, gritando coisas sobre o perigo do comunismo voltar ao país para destruir a família, a pátria e degenerar nossas crianças. Há exemplo mais claro que isso?


Ainda. Somado a isso, o maior sinal desta violência é o projeto de destruição da memória brasileira. Não bastasse a ditadura ter eliminado tanto a memória física dos corpos daqueles que lutaram contra a ditadura, os desaparecimentos de toda espécie, houve a destruição de uma cultura brasileira que estava pensando o Brasil em termos cinematográficos, literários, artísticos, musicais e outras frentes. E com o golpe tudo isso ruiu e cedeu lugar ao que já estava em avanço e tomou por completo a cultura nacional: a inserção de uma indústria cultural plenamente alienante que perdura até os dias de hoje. Ou seja, a destruição física, intelectual e sobretudo cultural fez e ainda faz parte deste tripé que está a plenos pulmões, para lembrar um certo autor russo. 


Mas não é somente isso, devemos lembrar que o passado surge com força e em certa medida atualizado. Trata-se de um processo de não esquecimento por parte desta extrema direita que ainda tem raiva e ressentimento daquilo que acontece com o outro. Afinal de contas, se você é uma pessoa atenta historicamente, basta perceber como eram os gritos de 64 e como hoje são os gritos de hoje. Há diferença? Há teorias da conspiração? Há fantasmas de um comunismo delirante que toma casas e propriedades? Sim! Há tudo isso! 

Percebes como a história tem suas voltas?

Ainda mais. Somado a isso, há um elemento de extrema importância e que não pode ser ignorado. A crise psíquica. Ou seja, dentro de um modo de produção capitalista, no qual, a indiferença, o sucesso e ascensão social só pode existir mediante a destruição do outro, esta crise surge exatamente aí; quando se naturaliza o processo de desastre na ordem do dia, cujo resultado é a culpabilização de si mesmo, o cansaço de si mesmo a partir de uma organização única e individual da vida. Ou seja, uma subjetividade totalmente normalizada de acordo com os ditames do capital. Nestes aspectos, não há nada de social, apenas existem soluções decorrentes do âmbito única e exclusivamente psicológicas. E não faltam agentes para legitimar tais ações. Os que querem ensinar algo desejam avidamente ganho de dinheiro e ensinam as pessoas desde a mais tenra infância que é preciso ser criativo, inovador e sobretudo, resiliente. Ou seja, o que isso nos mostra? Que a solução está única e exclusivamente em você. 

É isso que propõe o capital. Que você se vire. Que você seja você mesmo. 

II

Outro aspecto é preciso ser pensado, analisado e sobretudo, entendido. O avanço do fascismo enquanto destruição psíquica. 

A primeira coisa que precisamos destacar é: o fascismo é irmão gêmeo do capitalismo. Não é possível falar em fascismo de maneira descolada do capitalismo, pois em tempos de crise aguda, os fascistas assumem reacionariamente a defesa do capital enquanto o modo de produção único e verdadeiro. Para isso, lançam mão da violência psíquica e física. Há inúmeros aparelhos ideológicos que agem na manutenção da ordem vigente. 

Há analistas que ao descrever o problema, o fazem de maneira superficial e para uma compreensão profunda é preciso ser radical, no sentido que Marx propôs, ou seja, ir à raiz do problema. Sem isso, a análise torna-se superficial e sobretudo, repleta de camadas que ofuscam o acontecimento em si. Portanto, é preciso entender de uma vez por todas: o fascismo só existe enquanto fenômeno do capitalismo. Toda tentativa de humanização aliado ao capitalismo é uma ilusão. Pois, imagine você, caro leitor, pensar em um modo de produção, cujo objetivo máximo é o lucro e para alcançá-lo não há regra, como humanizar os homens em um sistema baseado na exploração do homem pelo homem? Não há humanização possível. Há apenas um disfarce. Um faz de conta.  

Outra coisa. As raízes fascistas do Brasil vêm de longe. Podemos remeter historicamente a década de 30. Inspirado em um catolicismo conservador, no Brasil desta década do início do século passado, os integralistas chegaram a ter um milhão de filiados em um país que até os anos 40 girava em torno de 40 milhões de brasileiros. Trata-se portanto, de uma grande porcentagem. 

O que este resultado nos leva a crer? Que as raízes brasileiras são eminentemente conservadoras. E se fizermos uma regressão, veremos que a constituição deste país é aquilo que Marilena Chauí descreve como mito fundador de uma sociedade autoritária. Portanto, o resultado disso tudo, se estivermos atentos aos movimentos históricos não poderia ser diferente de uma guinada à extrema direita. Consequentemente a isso, o que nos foi fornecido ao longo da história é uma destruição psíquica em franca expansão, cujo resultado é a expansão do mal estar, aflições e ansiedades típicos de um mundo pós moderno que oferece cada vez mais liberdade individual ao preço de menos insegurança. 

A expansão de um capitalismo, as formas de sua manutenção que, em determinados momentos de crise atingem o auge em defesas reacionárias. As formas de defesa deste capitalismo, obviamente, não aparecem violentamente. Ao contrário. Como um conto de fadas há inúmeras pessoas que trabalham de graça, na produção de mais valia e em certo sentido, auxiliam outras pessoas atuarem na manutenção do capital, pois, fazem de tudo para conseguir seus objetivos que creem, ser possível a base de medida única e exclusivamente esde seus esforços. Não conseguindo seus objetivos, alguns entram em profunda depressão, somada à base dos movimentos do capital que falseiam a consciência, deixando o homem em colapso nervoso que pensou ser criado por si mesmo.  

Convém dizer. Quando falamos em signos da violência, queremos dizer o mesmo que disse Bakhtin. O signo é a forma da estrutura que realiza em som articulando um sentido, ideologicamente completado pelo pensamento. O encontro entre som e o conceito dá o elemento resultante da semiose, por isso, tudo é ideológico, ou seja, nos fornece uma significação que pode ser verdadeira ou falsa. O signo para ser semiótico, todo signo precisa de um corpo físico/material e uma significação. A semiose ocorre exatamente no encontro entre essas duas partes do signo: a representação material e a significação. Importante dizer que, nessa obra, o ponto em debate é a linguagem, ou seja, da estrutura realizada pelo pensamento para significar.

Nosso ponto de partida é exatamente esse. Enquanto processo de destruição psíquica, o capital e seus movimentos reflete e refrata os objetos física que através da linguagem os deturpa ou não. 

Por esta razão o trabalho com uma espécie de passado glorioso, mítico e através de um salvador, no caso, um líder que os guie, é essencial na constituição deste processo. Sem isso, dificilmente aconteceria. Mas é exatamente aí que atua de maneira ímpar a destruição psíquica. Na medida em que o indivíduo se desfaz na massa, lança seu eros de encontro ao outro, torna-se outro. Pois, afinal de contas, tudo dado, pergunto novamente a mesma questão colocada no início deste livro: quem são os fascistas? São pessoas comuns que trabalham e vivem cotidianamente suas vidas, mas que no encontro com o outro que pensa semelhante a mim, e na medida que eros vai atuando, permite-me lançar meu inconsciente de maneira consciente na massa. É por esta razão que pessoas consideradas inteligentes, com elevada instrução apoiam movimentos tão reacionários. Portanto, a destruição psíquica tem como resultado último a destruição de si mesmo. 

III

O quadro atual da destruição da razão, conceito utilizado por Lukács em sua grande obra, A destruição da razão, nos fornece pistas interessantes para compreensão da situação social deste brasil apequenado, (termo utilizado por Romero Venâncio, para expressar uma certa decadência cultural, ideológica e sobretudo, política destas terras) pois é ali que se encontram os elementos.

Desde o início da ditadura militar, o que se viu foi um forte processo de avanço da indústria cultural em detrimento de um crescimento interrompido de uma cultura nacional crítica que se vinha consolidando. Teatro, música, artes e até filosofia, que é uma área completamente colonizada aqui no Brasil, começaram a pensar o Brasil de maneira crítica, mas foram brutalmente cortadas de todas as formas de atuação. Primeiro houve o movimento de violência desenfreada contra todos que atuavam em prol da democracia, depois houve uma atuação mais sistemática e inteligente por parte dos militares. Cortaram a atuação da inteligência pela raíz. E após isso, o que se viu? Um forte processo de decadência cultural. À guisa de exemplo. O cinema com toda sua construção ao longo dos anos, a começar pelo cinema novo e tudo que veio depois cedeu lugar para a pornochanchada e todo tipo de americanização em terras brasileiras. 

Somada às duas décadas de ditadura, que resultado temos? A criação de uma juventude sequelada que, sem noção crítica, de cultura e muito menos de história, não se sabe mais localizar-se no espaço e no tempo. Vivem suas vidas conforme com os aparelhos ideológicos do estado.

O resultado disso está aí… Um avanço cada vez mais evidente de uma extrema direita, ao mesmo tempo em que ocorre a descrença da democracia liberal e o avanço de um descontentamento em relação a estas instituições, cuja indignação da população não está revertendo-se em ações radicais de esquerda. Ao contrário, os movimentos reacionários estão abarcando a indignação da população, questionando inclusive o estado burguês. Enquanto isso, a esquerda tenta de várias maneiras, o diálogo, o consenso e alianças das mais diversas tendências. Mas é preciso dizer. Se acostumaram com as mordomias do poder, se acostumaram a administrar o capital e não colocaram um instante sequer em questionamento. 

Veja só que interessante. Neste momento quem questiona o papel do estado, não são as pessoas ligadas à esquerda. E sim os que estão à direita. É evidente que questionam por meio de uma ideia que não faz o menor sentido e que não se sustenta historicamente: o tal do anarcocapitalismo.    

Tal filme já vimos várias vezes na história. 

Outro dado que é preciso colocar nesta pequena exposição, é sobre nossa miséria intelectual e conformismo por parte das esquerdas. 

Sérgio Lessa, resume bem a história: 

"Há outros momentos, contudo, em que o oposto ocorre. São períodos em que os processos alienantes predominam na totalidade social, impondo limites tão duros ao desenvolvimento humano que o desenvolvimento dos indivíduos se adianta ao da sociedade. As necessidades e possibilidades dos indivíduos são mais humanas, ricas e elevadas do que as possibilidades e necessidades presentes na vida cotidiana. As consequências dos atos individuais, nesses momentos, ao invés de impulsionar o crescimento das pessoas, exercem uma ação tipicamente inversa: freiam seus desenvolvimentos. A conexão com a história, ao invés de fazer dos indivíduos curiosos, questionadores insaciáveis caçadores do conhecimento necessários a desvendar os "segredos do mundo", realiza exatamente o oposto. Isto é, promove a reprodução ampliada da ignorância, da apatia e do conformismo"( Sérgio Lessa. O revolucionário e o estudo: Por que não estudamos? P. 16)


Estamos exatamente mergulhados neste oposto. A extrema direita com sua ressignificação sígnica consegue abarcar mentes questionadoras e que poderiam muito bem adotar um lado revolucionário, mas devido a estes aparelhos ideológicos do estado, atuam de um lado extremamente reacionário com fortes processos nacionalistas.  

Por não existir nenhum horizonte soacialista no Brasil, ou uma organização que seja diferente desta ordem capitalista, a extrema direita vem tomando conta dos espaços deixados pela esquerda. Basta vermos o esvaziamento da teologia da libertação e as comunidades eclesiais de base. As formas de racismo e fundamentalismo religioso se tornaram alternativa à maioria dos brasileiros na eleição de Bolsonaro. E apesar da eleição de Lula, a extrema direita está organizada e consolidada no país. 

O falecido Olavo de Carvalho e seus asseclas vinham militando nas redes e se organizando há mais de duas décadas. Faziam militância cotidianamente. A dita “esquerda” se acostumou com os cargos e poder…

A pergunta é: quem reconfigurou à política? A extrema direita! E é justamente esta reconfiguração que vem atraindo muitas pessoas, em específico, os mais jovens. 

IV 

Diante do exposto, resta compreender que o mal-estar contemporâneo não é um desvio, mas sim um produto necessário das formas históricas que organizam a vida social sob o capitalismo. A chamada razão fascista não é um desvio moral ou uma irracionalidade. Ela é, antes de tudo, uma forma histórica de racionalidade que emerge em momentos de crise, reorganizando afetos, discursos e práticas em defesa da ordem vigente. Há claramente um projeto de sociedade, uma visão de mundo e uma visão de vida. Não se pode negar tais fatos. Examinar o fadcismo à maneira psicológica é um erro profundo. É preciso compreendê-lo no interior das dinâmicas sócio-históricas. 

Nesse sentido, o fascismo não deve ser entendido como exceção, mas como possibilidade permanente inscrita no próprio desenvolvimento do capital. Sua força reside justamente na capacidade de mobilizar sujeitos comuns, reorganizando suas frustrações, medos e ressentimentos em uma linguagem política que oferece sentido, pertencimento, direção e sobretudo, um projeto e horizonte. 

As pessoas que aderem ao fadcismo não são seres irracionais. Sabem muito bem as razões de.aderir um projeto de sociedade desumanizador e seletivo. Na medida em que reconhecem que não há lugar para todos - que é necessário uma espécie de limpeza social - proclamam a liberdade irrestrita para manter suas vidas na ordem do dia. Mesmo que tais ordenamentos custem à vida de outros. 

Por tais fatores, é importante retomar a questão inicial — quem são os fascistas? —, a resposta permanece incômoda: mas é preciso ser franco. Não são monstros externos à sociedade, mas sujeitos produzidos por ela mesma. São indivíduos atravessados por contradições, formados em um mundo que destrói vínculos sociais, que preconiza o processo de desumanização e ao mesmo tempo em que exige coesão simbólica, mesmo que esta coesão seja repleta de refração ideológica - não importa. É nesse vazio que a razão fascista se instala e se assume enquanto tal. 

Por isso, o combate ao fascismo não pode se limitar ao plano moral ou institucional. Trata-se de uma tarefa mais profunda: reconstruir as condições materiais, simbólicas e históricas que permitam o florescimento de uma racionalidade verdadeiramente emancipadora e que tenha um projeto de vida e sociedade radicalmente objetivo para nós cidadãos. 

Sem isso, o que veremos será a repetição — não como farsa, mas como permanência. Pois, - em cima dos nossoa erros; eles atuam. 






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