ADOECIMENTO CAPITAL
O Brasil é um dos países que mais consomem tarja preta no mundo.
I
Em tempos de um capitalismo de mãos dadas com o fascismo, há um debate que precisa ser analisado à luz do materialismo dialético. O aumento significativo do uso de medicamentos de tarja preta.
Portanto, analisemos o seguinte número: o Brasil vende cerca de 123 mil caixas de medicamentos tarja preta por dia.
O que significa vender tanto remédio em uma sociedade que, paradoxalmente, padece de inúmeros males sociais, políticos, psíquicos e, sobretudo, culturais? Seria essa medicalização uma solução fast food para problemas muito mais profundos?
Como se vê, além da expansão do capitalismo e da mercantilização das doenças — temos agora uma expansão exponencial, e muitas vezes alienante, do consumo de tarja preta.
É por essa razão que trago metaforicamente Pedro Bandeira e sua ideia de droga da obediência para este diálogo. Poius há uma hipótese séria que precisa ser posta: seria a indústria farmacêutica um aparelho ideológico? Um dispositivo de controle, cujo objetivo central seria regular a psique humana?
Nesta sociedade, lembrar as análises de Byung-Chul Han (em Sociedade do Cansaço) ajuda a esclarecer o cenário. Entre professores — minha profissão — tais reflexões se confirmam cotidianamente: o adoecimento psíquico se tornou parte da rotina de qualquer força de trabalho cada vez mais degradante e espoliadora de direitos conquistados historicamente e que estão sendo retirados em detrimento deste mesmo individualismo exacerbado.
II
De onde vêm tantos adoecimentos?
Podemos começar pelo conceito apresentado por Byung Chul Han: o cansaço como resposta do corpo ao excesso de positividade e cobrança que a sociedade impõe. O lema central do capitalismo atual — que muitos chamam de neoliberalismo — poderia ser resumido em uma colocação que o filósofo coreano/alemão coloca em suas obras: yes, we can.
Essa positividade opera por meio de uma parafernália ideológica sem a qual seria impossível convencer o homem contemporâneo de sua obrigação de performar, produzir, avançar, melhorar sem cessar. E, dentro dessa busca desenfreada por poder e produtividade, o corpo cansa. Mas não é apenas um cansaço físico: trata-se de um cansaço de si mesmo.
De tanto tentar e não chegar ao destino prometido, muitos buscam, solitariamente, uma solução rápida.
Yes, we can?
O corpo que não aguenta mais as exigências impostas pelos aparelhos ideológicos do Estado — e pelos mecanismos invisíveis do mercado — colapsa. E, diante da aceleração do tempo, a principal patologia contemporânea, a alternativa oferecida é sempre a mesma: algo que permita continuar produzindo.
A solução, então, torna-se então farmacológica.
III
Nesse contexto de cansaço contemporâneo, vemos também a filosofia estoica — ou pelo menos um de seus princípios — ser cooptada e reutilizada pelo capitalismo. A ideia é simples: aceitar o que não pode ser mudado e controlar apenas nossas reações e emoções diante dos eventos externos.
Pense nessa máxima nos dias de hoje. Ela cai como uma luva para os interesses do capital.
Cultiva-se a autodisciplina até mesmo no próprio cansaço. Não se percebe que por trás dessa ideia — usada de maneira perniciosa — está a ampliação de um individualismo exacerbado que atropela qualquer noção de solidariedade.
IV
Ao fracassar dentro da lógica do desempenho, muitos atribuem a si mesmo a culpa pela própria exaustão. E é aí que encontramos um dos motores ideológicos do capitalismo tardio: a culpa em si mesmo e a falta de uma leitura dialética que permite analisar as inúmeras contradições existentes.
O sujeito contemporâneo, esmagado pela produtividade, sente que nunca entrega o suficiente, nunca é eficiente o bastante, nunca alcança o ideal meritocrático que lhe vendem desde a infância.
E, diante dessa sensação de débito infinito, a medicalização aparece como anestesia e como engrenagem. É essa droga da obediência que organiza, que estabiliza, que silencia, que permite continuar operando sem questionar.
Não se trata de demonizar medicamentos: muitos deles são fundamentais, salvam vidas, e sua existência é um avanço civilizatório. O problema está no uso ideológico. No uso que mascara causas estruturais e transforma sintomas sociais em enfermidades meramente individuais.
V
O princípio de uma reflexão começaria com perceber que a dor não é fracasso pessoal, mas índice de uma realidade mutilada e repleta de contradições. Portanto, compreender que o adoecimento é muitas vezes político, e não apenas clínico.
Buscar reconstruir vínculos, solidaridades, comunidade — aquilo que o individualismo tóxico tenta sempre dissolver.
E, principalmente, é resgatar a pergunta incômoda que todo sistema tenta suprimir:
“Quem lucra e ganha com meu cansaço?”
Quando essa pergunta volta à cena, eis o início da reflexão.
Talvez seja essa, no fim das contas, a verdadeira desobediência:
Sentir a dor do existir, passar pelo sofrimento e sobretudo, compreender e elaborar profundamente as causas deste. Assim, olha-se para si com o outro que me vê.
Em tempos de niilismo, remédio para dormir, para ficar alegre, para centrar-se na exata medida, pergunto novamente: quem lucra com meu cansaço e sobretudo: é possível falar em um sentudo para a vida neste contexto?
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