A cegueira em Saramago
Por: Marco Rodrigues.
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
— Livro dos Conselhos. José Saramago.
“Estou cego!”
O grito desesperado ecoa no meio da cidade. Um homem, parado diante do trânsito apressado, já não consegue enxergar os carros, as pessoas, as ruas. Mas não se trata de uma cegueira comum. Não há escuridão. O que ele vê é um branco intenso, leitoso, absoluto. Uma cegueira branca.
José Saramago sabia que esta não era apenas uma doença física. Em Ensaio sobre a Cegueira, a perda da visão torna-se metáfora da própria condição humana.
A cidade segue seu ritmo frenético. Os sinais abrem e fecham rapidamente. Os pedestres atravessam as ruas com ansiedade. Os motoristas aceleram impacientes, como se o tempo lhes escapasse pelas mãos. Em meio ao caos urbano, um carro permanece parado no cruzamento, imóvel como a pedra de Carlos Drummond de Andrade no meio do caminho.
As buzinas começam a soar. As pessoas irritam-se. Ninguém deseja compreender o que acontece; querem apenas seguir adiante. Até que um homem decide sair do carro e aproximar-se.
— O que aconteceu?
— Estou cego.
A resposta seca interrompe a lógica cotidiana. Como alguém pode simplesmente ficar cego assim, de repente, no meio da cidade?
O homem caridoso conduz o desconhecido ao hospital. Entretanto, ao retornar às ruas, percebe algo ainda mais assustador: outras pessoas começam a apresentar os mesmos sintomas. A cegueira espalha-se silenciosamente.
Dois homens conversam na calçada:
— Que cegueira é essa?
— Não sei.
Mas Saramago sabe.
E talvez sua resposta esteja na célebre frase do romance:
“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.”
A verdadeira cegueira de que fala Saramago não está nos olhos, mas na incapacidade humana de perceber o outro. Vivemos cercados de imagens, informações e movimento, mas continuamos indiferentes à dor, ao sofrimento e à existência alheia.
A sociedade contemporânea talvez seja marcada exatamente por isso: vemos tudo, mas compreendemos muito pouco. Olhamos, mas não reparamos. Seguimos apressados pelas ruas da vida, incapazes de enxergar aquilo que realmente importa.
Assim, a cegueira em Saramago transforma-se em crítica social, ética e existencial. Não é apenas a perda da visão física; é a perda da sensibilidade humana. Uma humanidade inteira que, mesmo enxergando, desaprendeu a ver.

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