IDEOLOGIA E DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL.


I


"Só se admitirá autonomia da Universidade, quando esta pertencer ao povo" (Alvaro Vieira Pinto)


I

Penso neste texto primeiramente a partir de um filósofo Brasileiro chamado Álvaro Vieira Pinto. Um homem que viveu um exílio em sua própria terra. Pois em tempos de ditadura militar, após ser obrigado a deixar o Brasil, sentiu saudades, não aguentou ficar distante de sua terra, voltou, no pior momento possível da ditadura, a imposição do Ato Institucional número 5, e com base em acordos com os militares, foi-lhe imposto uma série de censuras, das quais, não poderia escrever, dar palestras, dar aulas. Viveu isolado da sociedade Brasileira, mas não alienado dela. 


Quando me remeto a este tema, ideologia e desenvolvimento educacional, lembro imediatamente da obra de Álvaro Vieira Pinto que leva o nome Ideologia e desenvolvimento nacional que faz uma análise interessante sobre o como ocorre este desenvolvimento. 


Para entendermos esta questão, convém de ante mão lembrar as críticas em relação ao pensamento filosófico Brasileiro que, ao ver de Álvaro Vieira Pinto nosso atraso é decorrente de uma situação colonial que priva os melhores homens de percepção histórica segura e global, desbordando-os e dividindo-os em confusões elementares, o que contribuiu para o atraso do nosso processo de desenvolvimento.


Esta situação gera um resultado. Ao invés de pensarmos nossa realidade, fazemos justamente o contrário. Olhamos a realidade com instrumentos alheios e no mais, tentando compreendê-las com os instrumentos errados, construímos uma certa falsa consciência, inautêntica e sobretudo, alienados. 


por falta de consciência própria utilizamos o que era próprio de consciência alheias e pelo modo como essas nos pensavam é que igualmente nos compreendemos. Estávamos assim entregues ao ponto de vista alheio, regulavam o juízo sobre nós mesmos pelo modo de pensar alheio, isto é, estávamos, no sentido etimológico da palavra, alienados. 


A alienação foi e continua sendo o traço de nosso desenvolvimento. Pensamos com a cabeça dos outros. E quando analisamos a situação de uma área em específico, a filosofia, a coisa é mais grave ainda. Pois em literatura, podemos falar em literatura brasileira, em história, temos história brasileira, o mesmo podemos dizer em sociologia, mas em filosofia penso que não. 


Tal foi e ainda é o caso brasileiro. 


II.


Se nossa condição é alienada e sobretudo colonizada, como seria a questão do desenvolvimento nacional? A resposta que encontramos em Alváro Vieira Pinto é a seguinte: "só quando subordinamos os fatos e o seu desenrolar a uma interpretação que, em última análise, decorre de um projeto é que lhe damos consistência histórica. Só então é possível falar em desenvolvimento nacional". Penso que o mesmo devemos levar em consideração a questão da educação. Pois como vamos pensar um país em seu pleno desenvolvimento, sendo que ainda estamos presos as amarras de um certo colonialismo de pensamento?


Sem essa consciência clara deste processo, da representação justa do social, o desenvolvimento enquanto categoria central é impossível de ocorrer.


Agora, coloquemos a questão: nosso país, nos dias de hoje, analisando sua conjuntura política e sobretudo social, está em condições de pensar algum desenvolvimento social?


Obviamente que não.


Analisemos as respostas em mais detalhes.


Primeira razão. Nossa formação, seja lá que nível escolar for, ainda é colonizada, ainda pertence a uma certa elite dominante que impõe uma educação dualista. Ou seja, uma educação para pobres e outra, para os ricos. Segundo, sendo uma condição colonial e sobretudo, opressora, ainda não desenvolvemos condições necessárias para o desenvolvimento de uma consciência crítica. A inautenticidade consiste uma forma modeladora de nosso pensamento. Em ciências humanas, isso é ainda mais grave. Veja a formação de nossos jovens universitários brasileiros. Desde o primeiro ano da graduação, não lhes é ensinado a pensar a realidade brasileira. Em grande medida, apenas aprendemos a ser bons leitores. Mas isso não basta. É preciso igualmente que nos compreendamos.


Como conclusão do que já foi dito, sendo nossa condição a alienação, nosso traço específico, é o status colonial, pois é próprio da colônia não é possui traço algum autêntico, mas sim o seu contrário.


O momento histórico que estamos vivendo é de avanço de uma extrema direita, raivosa, busca legitimar este status colonial e sobretudo, abraçar o imperialismo. Piorando ainda mais nossa condição.


Quem vem ditando as formas políticas e até pensando em um certo desenvolvimento, à sua maneira, não é o pensamento crítico, mas sim o pensamento reacionário. Aquele que defende o individualismo sobre todas as coisas, aquele que cria condições de um status de servidão, mas obviamente com outras roupagem, pois os capitalistas sabem trabalhar muito bem as questões ideológicas e seus mecanismos de metamorfoseamento.


Tal é a nossa condição.



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