Droga da obediência.

 

O Brasil é um dos países que mais consomem tarja preta no mundo.

I

O célebre Jorge Luís Borges dizia que escrevemos nossos livros para nos ver livres deles Não sabemos nada quando nossos livros são lançados ao mundo. Nesta época repleta de pós-modernidade e sobretudo, liquidez, interpretações são as mais variadas possíveis, dignas, às vezes, de um realismo fantástico! 

Pois bem meu caros. Como já perceberam, o título do texto remete ao escritor Pedro Bandeira e sua crítica radical aos fármacos e as consequências que este pode ter. Se é que é assim sua interpretação. 

A partir do momento em que nossos livros dão vida própria, nós escritores já não podemos fazer nada. Uma vez lançado ao mundo, os dados estão lançados. 

Mas, vamos ao ponto cerne de nossa reflexão: O Brasil vende cerca de 123 mil caixas de tarja preta por dia! 

Lembram do título do texto? Droga da obediência. 

O que significa vender tanto em uma sociedade que paradoxalmente padece de inúmeros males sociais, políticos, psíquicos e sobretudo culturais? Seria uma solução fast food para problemas mais profundos? Como se vê, não bastasse a expansão do capitalismo tardio sobre a mercantilização do luto, que se expandiu na pandemia, temos agora uma expansão exponencial/alienante da venda de tarja pretas. 

É por esta razão que metaforicamente trago Pedro Bandeira neste texto para nossa conversa. Pois há uma hipótese séria e que é preciso ser colocada. Seria esta indústria farmacêutica um aparelho ideológico? Cujo objetivo central é o controle total da psique humana? 

Não basta os apontamentos aqui expostos. É preciso compreender por meio de uma leitura dialética que resta a muitos homens, como única forma de sobrevivência neste capitalismo tardio cada dia mais espoliador e mais reformista=retirada de direitos, a medicalização. 

Nesta sociedade contemporânea, lembrar as análises de Byung Chul Han, (sociedade do cansaço) é muito comum ver pessoas exaustas de tanto trabalhar. Entre os professores, profissão minha -, tais reflexões aqui postas confirmam esta medicalização cotidianamente. Pois  o adoecimento psíquico faz parte da rotina de qualquer força de trabalho.

Mas não fiquemos apenas na superfície. Mergulhemos. 

  II

De onde vêm grande parte dos adoecimentos? 

Podemos começar a compreender tais elementos a partir do conceito cunhado anteriormente por Han em sua Sociedade do cansaço. Nesta obra, há a ideia de um cansaço como resposta do corpo para o excesso de positividade e cobrança que a sociedade impõe. O lema principal do capitalismo atual, que muitos chamam de neoliberalismo é: yes, we can. Esta positividade conta com uma parafernália ideológica, sem a qual não seria possível convencer o homem contemporâneo. E dentro desta positividade, nesta busca desenfreada de poder a qualquer custo, é necessário fazer qualquer coisa. O resultado é o cansaço. Mas não é apenas um cansaço físico, trata-se de mais, um cansaço de si mesmo. De tanto tentar e não chegar, às vezes ao destino planejado, como solução, busca-se, sozinho, uma solução. 

Yes, we can? 

O corpo que não aguenta mais diante das inúmeras exigências que lhe são impostas através dos aparelhos ideológicos do estado, padece. E diante da aceleração do tempo, a principal patologia contemporânea, resta uma solução rápida, para que esta não atrapalhe a continuidade da produção. 

 III

Dentro deste cansaço contemporâneo, vemos a filosofia estoica, ou, um dos seus princípios serem cooptados ideologicamente e reutilizados pelo capitalismo. A ideia central muito usada é: aceitar o que não pode ser mudado e se concentrar em controlar nossas próprias reações e emoções em relação aos eventos externos. 

Pense nesta ideia nos dias de hoje. Cai como uma luva para os interesses dos capitalistas. Cultivar a autodisciplina, inclusive o próprio cansaço. Não se vê que por detrás desta ideia utilizada de maneira perniciosa está a expansão de um individualismo exacerbado que insiste em atropelar qualquer noção de solidariedade. 

Entendem agora a razão de ser droga da obediência? 


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