Postagens

Saber e experiência. Notas.

Imagem
  Benjamin Franklin, em 1 de outubro de 1752, auxiliado por seu filho William,[1] realizando a experiência da pipa. Atualmente, as informações circulam em uma velocidade tão intensa que já não necessitamos da televisão para tomar conhecimento dos fatos. As novas tecnologias nos oferecem uma suposta liberdade de escolha sobre aquilo em que acreditar. No entanto, esse excesso informacional, quando não é organizado e criticamente assimilado, transforma nossas mentes em verdadeiros depósitos de dados fragmentados e, muitas vezes, inúteis. Eis a chamada sociedade da informação: um fluxo incessante de fatos, discursos, imagens, boatos e conteúdos efêmeros que nos atravessam a todo instante. Contudo, na mesma proporção em que cresce o volume de informações, diminui a capacidade de elaboração da experiência. A rapidez com que tudo se transmite produz um efeito profundo: a ruptura do elo entre passado, presente e futuro. Uma vez rompida essa continuidade, o saber historicamente acumulado pe...

O mito da razão única

Imagem
Por: Marco Rodrgues Um fenômeno silencioso, porém profundamente perigoso, vem ocorrendo há tempos na chamada sociedade da informação: a difusão das ideias sob a ótica da razão única. Poucos percebem esse processo, embora seus efeitos sejam cada vez mais visíveis. Mas o que significa, afinal, a razão única? Trata-se da construção e da circulação de uma única interpretação dos fatos — especialmente no campo político — cuja finalidade não é o debate, mas o convencimento a qualquer preço, isto é, fazer com que toda posição divergente seja percebida como errada, ilegítima ou irracional. O perigo imediato dessa lógica é o autoritarismo. A história oferece exemplos eloquentes. Governos que se sustentaram sobre o mito da razão única — como a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini — difundiram sistematicamente à população a crença de que o fascismo e o nazismo eram regimes benéficos, apresentados como soluções para os males sociais. Para que tal construção fosse possível, o engano, a distor...

Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela

Imagem
  “ Doutrina Monroe”: Cartoon de WA Rogers mostra potentados europeus observando o poderio naval americano, em torno de 1904. Do New York Herald. Sem data (Fonte: BBC) “ Em qual mentira vou acreditar?” (Racionais MC’s) Por: Marco Rodrigues Vivemos um momento histórico em que a barbárie deixou de ser exceção para tornar-se método. No caso da Venezuela, este processo revela-se de maneira exemplar daquilo que Marx chamou de falsa consciência: uma forma de percepção da realidade produzida socialmente, funcional à manutenção da ordem dominante e naturalizada no cotidiano. Desde as sucessivas tentativas de deslegitimação do governo da República Bolivariana, promovidas pelos Estados Unidos por meio de sanções, bloqueios econômicos, pressões diplomáticas e operações de guerra híbrida, observa-se um fenômeno que precisa ser analisado: parcelas significativas da população — incluindo venezuelanos dentro e fora do país e setores da extrema-direita latino-americana — passaram a celebrar medida...

ADOECIMENTO CAPITAL

Imagem
O Brasil é um dos países que mais consomem tarja preta no mundo. Por: Marco Rodrigues I Em tempos de um capitalismo de mãos dadas com o fascismo, há um debate que precisa ser analisado à luz do materialismo dialético. O aumento significativo do uso de medicamentos de tarja preta. Portanto, analisemos o seguinte número: o Brasil vende cerca de 123 mil caixas de medicamentos tarja preta por dia. O que significa vender tanto remédio em uma sociedade que, paradoxalmente, padece de inúmeros males sociais, políticos, psíquicos e, sobretudo, culturais? Seria essa medicalização uma solução fast food para problemas muito mais profundos?  Como se vê, além da expansão do capitalismo e da mercantilização das doenças — temos agora uma expansão exponencial, e muitas vezes alienante, do consumo de tarja preta. É por essa razão que trago metaforicamente Pedro Bandeira e sua ideia de droga da obediência para este diálogo. Poius há uma hipótese séria que precisa ser posta: seria a indúst...

Vladimir Mayakovsky: um poeta a planos pulmões

Imagem
O poeta russ o Vladimir Mayakovsky (Владимир Маяковский), que viveu a Revolução Bolchevique de 1917, foi um dos grandes poetas de seu tempo. Com versos e composições audazes, iniciou um novo modo de fazer poesia. Escreveu vários poemas para declamação pública, derrubando as tradições literárias da cultura burguesa de sua época. Aos poucos, Mayakovsky inaugurava uma nova forma de produzir arte, vinculada ao futuro e às novidades tecnológicas surgidas na sociedade russa. Naquele período, os círculos acadêmicos eram muito comuns entre os russos; museus e cafés eram lugares preferidos de debate. No entanto, não foi esse o caminho seguido pelo poeta. Juntamente com aqueles que desejavam novas formas artísticas, Mayakovsky abandonou os círculos acadêmicos e dirigiu-se às praças, ruas e fábricas dos grandes centros urbanos da Rússia Soviética para escrever uma poesia que surgia em meio às contraditórias catástrofes da guerra. Clark e Holquist[1], por exemplo, relatam que Mayakovsky dormia n...

A MORTE EM VIDA

Imagem
  Retrato de Pablo Picasso. Juan Gris. 1912 Por: Marco Rodrigues I O happy hour é uma das horas mais esperadas por muitos. Trabalha-se durante toda a semana para que chegue logo a sexta-feira e, assim, se possa viver a própria existência da maneira que se acredita compreender aquele momento vivido. Um momento em que o eu se encontra diretamente consigo mesmo e com os demais ao seu lado. Um "paraíso". E, quando esse momento chega ao fim, o desespero surge tão rapidamente quanto a euforia vivida naquele instante. A vida cede lugar ao papel social que lhe foi atribuído. Reinicia-se a rotina, o trabalho e as demais tarefas. Um verdadeiro fardo! Para quantas pessoas a vida é assim? Um peso a carregar, em que os poucos instantes de felicidade representam apenas a interrupção temporária da dor — um tempo fugaz, que logo se esvai quando a alegria cessa. Viver como se a vida fosse uma obrigação, viver à espera do happy hour , é abandonar-se por muitos instantes; é deixar-se mor...

JOSUÉ DE CASTRO: MEMÓRIAS DE CARANGUEJOS

Imagem
  Josué de Castro  Memórias de  Caranguejos "Lembro-me bem deste triste dia. Andei a tarde toda, cavando o chão de pedra na beira da várzea esturricada, em busca de alguma raiz de macaxeira que tivesse ficado, por acaso, enterrada no solo da cultura da cultura de vazante. Mas não achei nada. Desanimado, sentei-me numa pedra na beira do riacho seco e vi, em torno de mim a planície descansada de uma vastidão impressionante. A seca tinha matado tudo. Deu-me uma tal depressão diante daquele espetáculo de areia e pedra, que senti meu coração, dentro do peito, crescer como se também virasse pedra". (Homens e caranguejos, p.74)  Dados biográficos.  Nascido em Recife, 1908, Josué de Castro foi um pensador e ativista brasileiro. Desde cedo, a fome foi uma grande preocupação sua. Aliás, foi o tema da sua vida.  Médico de formação, tornou-se um dos maiores geógrafos brasileiros. Suas obras, Geografia da fome e geopolítica da fome, são referências fundamentais para qua...