A MORTE EM VIDA

 

Retrato de Pablo Picasso. Juan Gris. 1912
Por: Marco Rodrigues

I

O happy hour é uma das horas mais esperadas por muitos. Trabalha-se durante toda a semana para que chegue logo a sexta-feira e, assim, se possa viver a própria existência da maneira que se acredita compreender aquele momento vivido. Um momento em que o eu se encontra diretamente consigo mesmo e com os demais ao seu lado.

Um "paraíso".

E, quando esse momento chega ao fim, o desespero surge tão rapidamente quanto a euforia vivida naquele instante. A vida cede lugar ao papel social que lhe foi atribuído. Reinicia-se a rotina, o trabalho e as demais tarefas.

Um verdadeiro fardo!

Para quantas pessoas a vida é assim? Um peso a carregar, em que os poucos instantes de felicidade representam apenas a interrupção temporária da dor — um tempo fugaz, que logo se esvai quando a alegria cessa.

Viver como se a vida fosse uma obrigação, viver à espera do happy hour, é abandonar-se por muitos instantes; é deixar-se morrer em vida e viver conforme aquilo que fizeram de você.

Uma completa heteronomia.

Poderíamos aprofundar ainda mais a questão: qual seria a diferença entre quem se abandona por instantes e aquele que põe fim à própria vida? A diferença é que o suicida tem coragem e encerra o sofrimento. Já quem permanece “vivo” morre aos poucos, esperando um momento fugaz de felicidade que, em muitos casos, revela a verdadeira falta de coragem para pensar sobre o tipo de existência que leva.

Essa vontade cega — e, sobretudo, irracional — dá continuidade ao sofrimento. Vive-se por poucos instantes, e, na maior parte do tempo, morre-se em vida, reproduzindo constantemente aquilo que fizeram de si.

E você? Já parou para pensar se é você quem conduz a sua vida ou se ela é determinada por outros? É daqueles que vivem esperando o happy hour?

Se for, é preciso pensar: o que estou fazendo da minha vida? Que sensação é essa que me faz sentir felicidade apenas em raros instantes? Ou será que aquele instante é mesmo felicidade? Podemos pensar, nos termos do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “não importa o que fizeram com vcocê. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram de você”.

Todo exercício filosófico tem o propósito de arrancar-nos da zona de conforto e nos fazer pensar fora da caixinha. E, nesses instantes de profundo desespero, é preciso ouvir a si mesmo, escutar as palavras que ecoam em seu pensamento, distanciar-se de si, para que o encontro consigo seja realmente proveitoso.

Nesse sentido, Sêneca possui lições valiosas para colocar em prática em nossas vidas. Embora óbvia, é preciso dizer: saber viver o presente, estar inteiro no momento.

Somente a lição socrática é capaz de promover uma reflexão profunda: “Conhece-te a ti mesmo”. Trata-se de uma prática cujo objetivo essencial é o conhecimento de si em todos os aspectos. Quem não compreende tais princípios comete um grave erro: elimina a si mesmo em vida. Por essa razão, o desejo de buscar o happy hour e esquecer o restante da semana parece fazer pleno sentido para alguns.

A plena existência só pode ser alcançada quando o ser começa a formular boas perguntas e decide, de forma autônoma — e não reprodutiva —, analisar a forma de vida que leva.

O impulso de reprodução só poderá ser expulso do corpo quando há consciência de si.

Por isso, a lição de Sócrates permanece atual: conhece-te a ti mesmo. Busque saber quem és, quais são teus desejos; investiga tuas profundezas, para lidar melhor contigo e com os outros ao teu redor. Só assim serás capaz de responder aos questionamentos que se impõem e, quem sabe, buscar a vida — e não a morte.

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