Vladimir Mayakovsky: um poeta a planos pulmões
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O poeta russo Vladimir Mayakovsky (Владимир Маяковский), que viveu a Revolução Bolchevique de 1917, foi um dos grandes poetas de seu tempo. Com versos e composições audazes, iniciou um novo modo de fazer poesia. Escreveu vários poemas para declamação pública, derrubando as tradições literárias da cultura burguesa de sua época. Aos poucos, Mayakovsky inaugurava uma nova forma de produzir arte, vinculada ao futuro e às novidades tecnológicas surgidas na sociedade russa.
Naquele período, os círculos acadêmicos eram muito comuns entre os russos; museus e cafés eram lugares preferidos de debate. No entanto, não foi esse o caminho seguido pelo poeta. Juntamente com aqueles que desejavam novas formas artísticas, Mayakovsky abandonou os círculos acadêmicos e dirigiu-se às praças, ruas e fábricas dos grandes centros urbanos da Rússia Soviética para escrever uma poesia que surgia em meio às contraditórias catástrofes da guerra. Clark e Holquist[1], por exemplo, relatam que Mayakovsky dormia no assoalho do telégrafo central de Moscou para estar de prontidão e elaborar cartazes sobre os acontecimentos da revolução.
Trotsky tinha um olhar diferente sobre o poeta. Dizia que em Mayakovsky havia reflexos de um gênio[2] e que ele não era, em primeiro lugar, um revolucionário e, em segundo, um poeta. Era antes de tudo um poeta que rejeitou as velhas formas do fazer poético, embora não por completo. Além de poeta, foi também sujeito e vítima das transformações sociais que, junto ao admirável desejo de construir uma nova sociedade e cultura, aproximaram-no significativamente dos acontecimentos da insurreição.
Após a Revolução de Outubro de 1917, Mayakovsky e os demais membros do grupo cubo-futurista entusiasmaram-se com os acontecimentos políticos da época e tomaram partido favorável à revolução. O ânimo diante dos novos fatos possuía várias razões. Juntamente com as rupturas político-sociais, surgia no horizonte um novo modo de fazer arte. É nesse momento que Mayakovsky escreve “Ode à Revolução” e “Marcha de Esquerda”, poemas declaradamente revolucionários[3].
Nos seus poemas, Mayakovsky apresenta como característica central o inconformismo diante do cotidiano sufocante, bem descrito, em 1913, no poema Algum dia você poderia
Manchei o mapa quotidianojogando-lhe a tinta de um frascoe mostrei oblíquas num pratoas maçãs do rosto do oceano.Nas escamas de um peixe de estanho,li lábios novos chamando.E você? Poderiaalgum diapor seu turno tocar um noturnolouco na flauta dos esgotos?
Em seus versos, a metáfora, as imagens, as rimas, as estrofes e a incansável resistência em não se entregar à vida cotidiana, rotineira e burocrática mostram-se como uma obsessão constante do poeta. Foi nessa direção que Roman Jakobson interpretou que o suicídio de Mayakovsky já estava pressuposto desde o início de sua obra. Segundo o linguista, o poeta teria preferido o silêncio a ser um mero vendedor de versos.
Com a morte de Lênin, Stalin assume o poder e estabelece uma série de regras e normas para a produção artística. Assim como o teórico Bakhtin e outros artistas censurados e acusados de produzir obras “subjetivas”, Mayakovsky era chamado pelos burocratas stalinistas de “incompreensível”, pois seus poemas não seguiam as diretrizes oficiais. A liberdade poética tão sonhada pelos artistas com o advento da revolução foi violentamente substituída por manuais burocráticos impostos goela abaixo, sendo gradualmente trocada pelo realismo socialista. Na esfera política, a oposição comandada por Trotsky sofreu as mesmas consequências, e a cada dia as liberdades antes desejadas eram cerceadas.
Mayakovsky preferiu o silêncio a submeter-se à censura oficial. Foi o que fez. Escolheu deixar a vida em 14 de abril de 1930. Este “lutador de palavras”, como o definiu Trotsky, deixou-nos um legado importante e inquestionavelmente precursor de um novo futuro, de uma nova poesia, brotando a plenos pulmões.
A seguir, o bilhete de suicídio de Mayakovsky:
A todos
Lilia, ame-me.
Os poemas inacabados entreguem aos Brik; eles saberão o que fazer.
Como dizem:
caso encerrado,
o barco do amor partiu-se na rotina.
Acertei as contas com a vida.
Inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.
Felicidade para quem fica.
Vladimir Maiakovski
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