JOSUÉ DE CASTRO: MEMÓRIAS DE CARANGUEJOS

 

Josué de Castro 



Memórias de  Caranguejos


"Lembro-me bem deste triste dia. Andei a tarde toda, cavando o chão de pedra na beira da várzea esturricada, em busca de alguma raiz de macaxeira que tivesse ficado, por acaso, enterrada no solo da cultura da cultura de vazante. Mas não achei nada. Desanimado, sentei-me numa pedra na beira do riacho seco e vi, em torno de mim a planície descansada de uma vastidão impressionante. A seca tinha matado tudo. Deu-me uma tal depressão diante daquele espetáculo de areia e pedra, que senti meu coração, dentro do peito, crescer como se também virasse pedra". (Homens e caranguejos, p.74) 


Dados biográficos. 


Nascido em Recife, 1908, Josué de Castro foi um pensador e ativista brasileiro. Desde cedo, a fome foi uma grande preocupação sua. Aliás, foi o tema da sua vida. 

Médico de formação, tornou-se um dos maiores geógrafos brasileiros. Suas obras, Geografia da fome e geopolítica da fome, são referências fundamentais para qualquer pessoa que deseja conhecer nosso país de maneira profunda.


Destacou-se no cenário brasileiro e internacional não só pelos seus trabalhos ecológicos sobre o problema da fome no mundo, mas também no plano político em vários organismos internacionais.


Como muitos cidadãos e cidadãs, foi obrigado a sair de sua terra por conta da ditadura militar que aqui se instaurou em 1964 para viver no exílio. Desterrado de sua terra, sofreu, sentiu saudades de sua terra tão querida, tentou voltar, mas não conseguiu. Morreu em 24 de Setembro de 1973, em Paris, capital da França. 



I


Desde sua origem, a concentração de renda faz parte destes trópicos. Aliado a isso, e como consequência, fome, miséria, escravidão e uma pequena oligarquia no pacote. E desde cedo Josué de Castro percebeu essas coisas. Não se trata, evidentemente, de uma mera percepção, é sobretudo, memória, história e experiência. Algo que nos toca, nos passa e não nos faz esquecer.Deve ser por isso que os textos de Josué de Castro não são marcados apenas pela objetividade supostamente neutra e científica. Possui, como já disse antes, memória e sobretudo, narrativa. Algo que lembra e traz em mim na memória, os dias que fui ao Piauí visitar meus tios, avós e primos e lá eu via a simplicidade do povo que se concentrava  em uma casa para assistir. Pois nem todos tinham televisão. E nesse movimento de juntar as pessoas, um certo ar comunitário pairava no ar. Algo que não acontece mais, pois o capital a tudo individualiza e de quebra transformou todos (ou, grande maioria, pelo menos aqui no Brasil) em empresários de si mesmos e em humanos máquinas. 


Josué de Castro pode ser inserido neste complexo momento destruidor e de ruptura de nossa história, como um homem exilado e que fez algo muito subversivo: pensou. Isso mesmo. Pensou. Como vocês devem saber, a ditadura civil, empresarial e militar de 64, além de torturar, matar, estuprar e fazer muitas atrocidades, deixou marcas psíquicas nos homens. E Josué não foi exceção. Nos últimos momentos de sua vida, na França, sentiu tristeza, pois não podia voltar ao Brasil. Tentou voltar, mas não conseguiu. Morreu no exílio. Morreu de tristeza. 


II


Seu texto, Homens e Caranguejos, publicado em pleno ano de 1967 tem aspectos muito interessantes que merece ser levado adiante pelas novas gerações. Trata-se de um livro escrito em primeira pessoa, e faz sentido assim o ser. Pois trata-se da vivência de Josué em pleno mangue, dos dramas, das vivências daqueles seres humanos que, saem da lama, ganham o asfalto e viram homens - gabiru e os caranguejos com cérebro, personificados em si mesmos, com sua antenas, deixam a lama e saem em busca de vibrações. Esta ideia foi retomada de maneira genial por Chico Science na banda Nação Zumbi em um tempo de renovação capitalista que é chamado por muitos de neoliberalismo, no qual, a proclamação do fim da história e do homem parecia ter sentido. Chico Science buscava pelas palavras de Josué a desorganização que possibilitasse a organização. Eis aqui a importância de tais palavras, do conceito de experiência que, longe de ser pobre , ganhou uma renovação capaz de trazer um novo sentido para um passado que parecia ficar nos escombros da história, Mas não, tal renovação é a exposição do que foi negada pela ditadura militar, pois, como já sabemos, a denúncia fez parte de seus escritos. 


O drama do nordeste relatado por Josué de Castro é também relatado por Leon Hirszman no documentário Maioria Absoluta, publicado em 1964, no qual retrata o cotidiano de trabalhadores rurais, ao mesmo tempo que denuncia o analfabetismo absoluto nesta região. Há mais elementos além de Leon Hirszman e que podem muito bem ser comparados com Graciliano Ramos e seu Vidas Secas. Um drama do Brasil que parece estar voltando aos dias de hoje e que nos anos 60, mesmo com as propostas de reformas de base de Jango, ainda que não houvesse um caráter nada revolucionário, mas pelo menos trazia alguma esperança em relação às inúmeras desigualdades existentes no país. Mas não foi possível fazer por conta das elites dominantes deste triste trópico que querem a fatia do bolo toda para elas. 


Não há nada de anormal nesta decisão. Pois um país com 500 anos de história e destes 300 foram de escravidão e 200 de dependência, não há nada que esperar que seja diferente deste percurso histórico.  


O drama da fome, do desespero, do analfabetismo e sobretudo, das reformas e avanço de um certo conservadorismo, que nunca deixou de existir, trouxe de volta certos traços de ressentimento (a psicanálise explica isso muito bem) e o autoritarismo externado das pessoas que, com toda vontade que se diz radical, teima em hospedar o espírito opressor em si mesmos. 


Esse brasil apequenado, negou a Josué a volta à sua pátria. Ficou com uma imensa saudade de seu povo que, de longe, mesmo trabalhando incansavelmente, debateu-se, quebrou-se por dentro, assim como milhares de brasileiros que deram suas vidas por justiça. 


Josué não voltou. Morreu. De tristeza.  




Dicas de leitura: 


Josué de Castro é um homem de formação ampla. Um espírito renascentista. Para conhecer sua ampla produção, destaca-se o clássico Geografia da fome. Obviamente o leitor poderá escolher outra obra, pois como dito, trata-se de uma difícil escolha em meio a tantas obras. 


Ao ler Josué, o leitor vai perceber que está diante de um grande pensador brasileiro. 

    


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