11 de Setembro: entre a civilização e a barbárie.



Por: Marco Rodrigues

George W. Bush deixou a Casa Branca e Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos. Havia muito trabalho pela frente. O governo Bush deixava como legado guerras, enormes gastos militares, denúncias de tortura, políticas controversas de segurança e uma sociedade profundamente dividida.

O que seria feito dali em diante? Reformismo ou mudanças realmente significativas? Ainda não se sabia. Obama, naquele momento, parecia mais uma estrela do rock do que propriamente um político prestes a assumir a presidência da maior potência econômica e militar do planeta.

Entre os acontecimentos que marcaram profundamente o governo Bush estava o ataque às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. O atentado entrou definitivamente para a história da humanidade. Pela primeira vez, os Estados Unidos foram atingidos em seu próprio território por um ataque terrorista de proporções inimagináveis.

A resposta política e discursiva de Bush foi marcada por uma linguagem que rapidamente ultrapassou a simples condenação do terrorismo. Em seus discursos, tornou-se recorrente a ideia de uma “luta entre a civilização e a barbárie”, além das referências à “cruzada” e, sobretudo, à “luta do bem contra o mal”.

Essa construção discursiva merece atenção. Ao definir o terrorismo como uma ameaça à própria civilização, Bush não estava apenas identificando um inimigo político. Estava construindo uma oposição moral absoluta: de um lado, o Ocidente, associado à civilização, à liberdade e ao bem; de outro, os terroristas, associados à barbárie, ao extremismo e ao mal.

O problema dessa linguagem é que ela tende a eliminar as zonas intermediárias. Quando um conflito político passa a ser apresentado como uma batalha entre o Bem e o Mal, desaparece a possibilidade de compreender suas causas históricas, políticas, econômicas e sociais. O adversário deixa de ser alguém que precisa ser compreendido historicamente e passa a ser simplesmente alguém que precisa ser destruído.

Esse discurso não era exclusivo do governo americano. Do outro lado, Osama bin Laden também construía uma narrativa semelhante, embora invertendo completamente os seus polos. Para seus seguidores, o Ocidente representava a opressão, a humilhação e a decadência moral, enquanto o Islã aparecia como a verdadeira civilização ameaçada.

Bin Laden afirmava:

«“O que os Estados Unidos estão provando hoje é muito pouco comparável com o que temos provado há dezenas de anos.”»

Em sua narrativa, portanto, os atentados não apareciam como acontecimentos isolados, mas como uma resposta a décadas de humilhação e violência sofridas pelos povos muçulmanos.

Temos, então, uma curiosa simetria.

Para Bush, a civilização estava ameaçada pelo terrorismo e pelo extremismo islâmico. Para Bin Laden, a verdadeira civilização era a islâmica, enquanto o Ocidente representava a decadência e a barbárie.

Ambos construíam o mundo a partir de uma divisão radical entre “nós” e “eles”.

Bush falava em civilização contra barbárie. Bin Laden falava em fiéis contra infiéis. Um falava em bem contra o mal; o outro, em resistência contra opressão. Embora ocupassem posições políticas e morais absolutamente distintas, compartilhavam uma estrutura discursiva semelhante: a transformação do adversário em uma figura absoluta do Mal.

É nesse ponto que o 11 de Setembro ultrapassa a dimensão de um atentado terrorista e se transforma também em um acontecimento filosófico. O problema não é apenas perguntar quem atacou, por quê e quais foram suas consequências. É necessário perguntar como sociedades inteiras passam a interpretar seus inimigos como bárbaros e a si mesmas como representantes da civilização.

Os atentados foram cometidos em nome de uma interpretação radical da Jihad. Entretanto, é necessário questionar se essa interpretação possui legitimidade teológica dentro da própria tradição islâmica. A Jihad possui diferentes sentidos e está submetida, na tradição islâmica, a condições e interpretações que não permitem simplesmente equipará-la à violência indiscriminada contra civis.

Do outro lado, também é necessário questionar o uso político da religião pelo Estado. George W. Bush frequentemente utilizou referências religiosas em seus discursos sobre a guerra contra o terrorismo. Quando a política externa de uma potência militar passa a ser apresentada em termos de uma luta entre o Bem e o Mal, o perigo está justamente em transformar decisões políticas em supostas determinações morais ou divinas.

A questão torna-se ainda mais problemática quando líderes políticos apresentam suas decisões como se possuíssem uma espécie de legitimidade transcendente.

No fundo, talvez o verdadeiro problema esteja justamente aí: quando Deus entra no campo de batalha, quem poderá questionar aquele que afirma lutar em seu nome?

É por isso que o 11 de Setembro pode ser pensado como um momento emblemático da tensão entre civilização e barbárie. Não apenas porque bárbaros cometeram um ato de violência contra civis, mas porque, depois daquele dia, o próprio conceito de civilização passou a ser mobilizado para justificar guerras, ocupações, torturas e novas formas de violência.

A barbárie, portanto, não está necessariamente apenas no outro.

Talvez uma das maiores contradições da história seja justamente esta: o homem frequentemente combate a barbárie acreditando estar representando a civilização — e, nessa luta, pode acabar reproduzindo aquilo que afirma combater.

E George W. Bush? Há relatos de que o presidente recorria intensamente à sua fé cristã para interpretar os acontecimentos e justificar sua visão de mundo. Quando a política passa a ser apresentada como uma conversa com Deus sobre a guerra, estamos diante de algo que merece, no mínimo, uma profunda reflexão filosófica.

Talvez seja mais fácil confiar nos ateus.

Não porque o ateísmo torne alguém moralmente superior — evidentemente não torna —, mas porque o ateu, ao menos em princípio, não pode utilizar Deus como autoridade última para justificar suas decisões.

Quando um homem diz: “Deus quer que façamos isso”, quem poderá discutir com ele?

Talvez seja justamente nesse ponto que a civilização precise tomar cuidado.

Porque, quando alguém acredita possuir Deus ao seu lado, o inimigo deixa de ser apenas um inimigo.

Ele passa a ser o Mal.

E contra o Mal, tudo parece permitido.


Sobre o autor.

Marco Aurélio de Passos Rodrigues é professor, filósofo, pedagogo, historiador e pesquisador na área da Educação. É mestre em Filosofia e doutor em Educação, com formação também em Psicanálise. Autor de seis livros, desenvolve pesquisas e reflexões sobre educação, filosofia, sociedade, violência, política e condição humana. Sua produção dialoga especialmente com o pensamento de Karl Marx, Antonio Gramsci, Paulo Freire, Mikhail Bakhtin, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Georg Lukács e Sigmund Freud.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O mito da razão única

Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela

NEIL POSTMAN: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESAPARECIMENTO DA INFÂNCIA. Ou, sobre o eterno retorno de uma ideia. (resenha)