Não basta culpar o fascismo


Por: Marco Rodrigues 


O líder integralista Plínio Salgado. Crédito: Superinteressante – Abril.com



Por: Marco Rodrigues 

É de conhecimento de grande parte da população brasileira o avanço da extrema direita ao redor do globo e, especificamente, entre nós, latino-americanos. Discursos repletos de promessas, alternativas simplistas e, sobretudo, o pressuposto de uma nova organização social apresentam-se como respostas para as crises contemporâneas. Entretanto, aquilo que aparece como novidade pode ser compreendido, em outro nível, como a regularização de uma determinada racionalidade cujo princípio fundador poderia ser formulado nos seguintes termos: não há lugar para todos.

Diferentemente de alguns setores da intelectualidade brasileira que tendem a analisar o fascismo prioritariamente sob a ótica da irracionalidade, precisamos compreender que existe um projeto de sociedade. O pressuposto do “todos contra todos” e do “ninguém por ninguém” pode ser entendido como uma radicalização de determinadas tendências do capitalismo, nas quais o indivíduo, transformado em empreendedor de si mesmo, assume um determinado ethos e passa a organizar sua própria existência segundo os imperativos da concorrência, da produtividade e da responsabilização individual.

Nesse sentido, o modo de produção capitalista deixa de ser compreendido apenas como uma racionalidade econômica e passa a operar também como um modo de vida, constituindo formas específicas de subjetividade, de relação com o outro e de compreensão do próprio fracasso e do próprio sucesso. O aspecto mais preocupante desse processo é justamente a naturalização de seu pressuposto desumanizante: a ideia de que a vida social é essencialmente uma disputa na qual cada indivíduo deve garantir, por seus próprios meios, a sua sobrevivência.

Entender essa racionalidade e esse projeto de poder, a meu ver, exige considerar pelo menos dois momentos cruciais de análise.

Primeiro: o avanço do fascismo não é somente resultado de um processo ideológico produzido pela classe dominante, por meio dos aparelhos ideológicos do Estado, dos meios de comunicação e de seus intelectuais (Gurus) orgânicos, que reproduzem e difundem constantemente determinadas representações sociais — hoje, inclusive, por meio das redes sociais.

Evidentemente, esse elemento existe e possui enorme importância. Entretanto, penso que ele não é constitutivo, por si só, da explicação do fenômeno. Há outro elemento fundamental que precisa ser levado em consideração: o processo subjetivo do indivíduo e as escolhas que ele realiza diante das determinações sociais, políticas e ideológicas às quais está submetido.

Em outras palavras, o que quero destacar é que muitos indivíduos aderem a determinadas posições políticas não necessariamente porque foram simplesmente “manipulados” ideologicamente, mas porque, em determinadas circunstâncias, consideram essas posições convincentes. Há, portanto, uma dimensão epistemológica — isto é, uma determinada maneira de interpretar o mundo — que não pode ser reduzida à mera manipulação. Há um processo racional neste desenvolvimento e reflexão das ideias.

Isso significa reconhecer uma questão incômoda, mas real: indivíduos podem realizar escolhas políticas a partir de convicções que consideram racionais, mesmo quando essas escolhas produzem consequências socialmente destrutivas ou desumanizantes. A existência da propaganda e da manipulação não elimina a responsabilidade subjetiva daquele que adere a uma determinada visão de mundo.

A própria história oferece exemplos de trajetórias marcadas por mudanças profundas de posição. Álvaro Vieira Pinto, por exemplo, teve uma aproximação inicial com o integralismo e posteriormente se afastou de seus princípios, passando por uma transformação significativa de sua orientação intelectual e política. Estudos sobre sua trajetória identificam justamente a influência católica e integralista em sua formação inicial e seu posterior afastamento dessas referências.

Algo semelhante, embora em uma trajetória bastante distinta, pode ser observado no caso de Dom Hélder Câmara. Na década de 1930, aproximou-se da Ação Integralista Brasileira e desligou-se do movimento em 1936. Sua trajetória posterior foi marcada por uma transformação profunda de sua atuação política e social muito bem demarcada anos depois na ditadura militar que durou 21 anos.

Esses exemplos são importantes porque permitem pensar o fenômeno para além da ideia de uma determinação ideológica absoluta. Se determinados indivíduos podem aderir a uma concepção política e, posteriormente, abandoná-la mediante um processo de reflexão, experiência histórica e transformação intelectual, então precisamos investigar também como os sujeitos constroem, justificam e eventualmente modificam suas próprias convicções.

O caso de Martin Heidegger é ainda mais complexo e, justamente por isso, particularmente significativo. Heidegger aderiu ao Partido Nacional-Socialista em 1933 e, naquele mesmo período, proferiu seu conhecido discurso de reitoria, no qual associava a universidade e o destino do povo alemão ao movimento nacional-socialista. Anos depois, Herbert Marcuse, seu antigo aluno, questionou-o diretamente sobre sua relação com o nazismo e sobre a ausência de uma retratação pública.

A correspondência entre ambos é reveladora. Em sua carta de 1947, Marcuse não reduz a questão à simples manipulação política. Ele formula o problema como uma questão intelectual: como um filósofo poderia ter interpretado o nacional-socialismo como uma possibilidade de renovação espiritual? Para Marcuse, tratava-se de um problema de conhecimento, verdade e julgamento. Heidegger, em sua resposta, reconheceu ter cometido um erro político em 1933, mas não produziu a retratação pública que Marcuse esperava.

O exemplo de Heidegger nos coloca diante de um problema fundamental: a adesão a uma ideologia não ocorre necessariamente pela suspensão da razão, mas pode ocorrer também por meio de determinadas formas de racionalização. O sujeito pode interpretar o mundo, construir argumentos, atribuir sentido à realidade e, justamente por meio desse processo, chegar a conclusões politicamente desastrosas.

É nesse ponto que precisamos deslocar o problema da pergunta “por que as pessoas são manipuladas?” para uma pergunta mais complexa: como determinadas formas de racionalidade tornam certas escolhas políticas possíveis, desejáveis e até mesmo evidentes para os indivíduos? Percebem o deslocamento do eixo questionador? 

II

Esta argumentação pretende analisar um aspecto específico do avanço do fascismo no Brasil. Por fascismo, entendo aqui uma política cujo sentido não se limita à conquista do aparelho estatal, mas envolve o avanço de um determinado modo de vida, marcado pelo processo de desumanização e pela perda da alteridade como elementos constitutivos da vida cotidiana.

Isso significa compreender o fascismo não apenas como um fenômeno institucional ou como uma doutrina política determinada, mas também como uma forma de organização das relações sociais. Seu princípio pode aparecer na vida cotidiana por meio da dissolução dos vínculos de solidariedade e da transformação do outro em concorrente, ameaça ou obstáculo.

A culpabilização pelos erros e fracassos individuais passa, então, a recair única e exclusivamente sobre o próprio indivíduo. Se alguém fracassa, a explicação está em sua incapacidade; se alguém não consegue sobreviver, a responsabilidade é exclusivamente sua; se alguém não alcança determinado padrão de vida, isso é interpretado como resultado de suas próprias escolhas.

Nesse aspecto, não há novidade absoluta dentro do modo de produção capitalista. A novidade está no ato extremo dessa lógica, na transformação da concorrência em princípio geral de organização da existência e na extensão da racionalidade econômica para dimensões cada vez mais amplas da vida social.

O indivíduo passa a relacionar-se consigo mesmo como uma empresa, com os outros como concorrentes e com a sociedade como um espaço de disputa permanente. A solidariedade aparece, então, como ingenuidade; a vulnerabilidade, como fracasso; e a existência do outro, muitas vezes, como ameaça aos próprios interesses. E mais, dentro da lógica fascista há a escolha de determinados povos desprovidos de humanidade e que devem ser simplesmente ignorados ou eliminados. O caso do Genocídio contra o povo Palestino promovido pelo Estado Israel é uma espécie de laboratório da extrema direita ao redor do mundo. 

É nesse terreno que o fascismo pode encontrar uma de suas condições de possibilidade: não necessariamente na irracionalidade, mas na racionalização de uma sociedade na qual a alteridade perdeu seu valor e na qual a competição passa a funcionar como princípio universal da vida.

Portanto, culpar o avanço do fascismo através da lógica construída pela classe dominante única e simplesmente não funciona. É preciso ter um olhar dialético sobre as inúmeras contradições existentes neste processo. 

Por fim, o fascismo não pode e nem deve ser compreendido apenas como uma ruptura irracional com a ordem social existente, mas também como uma possibilidade produzida pela radicalização de determinadas relações, valores e formas de subjetivação já presentes nessa própria ordem.

Sobre o autor. Marco Aurélio de Passos Rodrigues é PhD em Filosofia e Ciências da Educação pela Emil Brunner World University e atualmente é coordenador pedagógico na Prefeitura Municipal de Santo André. É autor de diversos livros, entre eles Arquitetura do golpe, Linguagem e ideologia: entre o signo e o marxismo e Ódio à política, ódio ao pensar. Sua obra mais recente é Signos da Violência: Crítica ao Fascismo Brasileiro, dedicada à reflexão sobre fascismo, violência, ideologia e sociedade contemporânea.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O mito da razão única

Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela

NEIL POSTMAN: CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESAPARECIMENTO DA INFÂNCIA. Ou, sobre o eterno retorno de uma ideia. (resenha)