SALINAS: UM RETRATO CALADO.

 


Salinas em frente à casa de Jean Jacques Rousseau

Dados biográficos

Luiz Roberto Salinas Fortes nasceu na cidade de Araraquara, localizada no Estado de São Paulo em 1 de Julho de 1937. Foi professor de filosofia da Universidade de São Paulo. 

No âmbito acadêmico ficou conhecido pelos estudos de Rousseau, a quem, segundo a filósofa Marilena Chauí, trouxe uma originalidade na interpretação do filósofo genebrino. 

Salinas se foi cedo demais. Mas deixou uma importante contribuição tanto em filosofia, como em suas memórias que demonstram muito bem o que foi o terror da ditadura militar. 

I

Sua obra mais conhecida possui um nome que já merece uma reflexão logo de início. Retrato calado. 

O que seria um retrato calado? Para retratar, não é preciso dizer algo? Nem que seja em outra linguagem, a que não seja escrita? 

Retrato calado faz parte daquele escopo que podemos nomear de escritas da tortura. Dizeres sobre traumas e violências sofridas durante as sessões de tortura. Silenciamentos que calam não só a voz, mas os corpos por inteiro.

Neste retrato, vemos as palavras de Salinas exalar sofrimentos: 

Enquanto estive “pendurado” - como se diz na linguagem técnica, numa repetição monótona da macabra cena inaugural do espetáculo pirotécnico do Brasil Grande do fim da década de 60 e do começo dos anos 70, os choques elétricos aplicados generosamente sobre os dedos dos meus pés- tendo sido poupadas, no meu caso , outras extremidades particularmente sensíveis - alternaram-se com regulamentar desfile de perguntas.   

Por quanto tempo Salinas suportou o suplício? Será que suportou, mesmo depois de terminado? Eis a questão. 

O retrato que se coloca aqui é uma tentativa sistemática de colocar o sofrimento em ordem de palavras que, através de misto de emoção e razão, tempos depois tenta entender o que aconteceu.  

A experiência de calar-se, é a forma da linguagem falar com ela mesma, no silêncio semelhante aos soldados que lutaram na grande guerra e quando voltaram não sabiam o que dizer. Este silêncio, no qual o ato de recolher-se, é um exercício profundamente interior de luta, para que as palavras tentem expressar de maneira mais objetiva possível aqueles tormentos sentidos durante os atos de tortura.  

Mas o que seria o calado? Nas palavras de Marilena Chauí, este calado seria o instante em que a linguagem se recolhe em si mesma, para depois recuperar a humanidade de dizer uma palavra que seja verdadeira. Esta experiência, dura em si mesma, é notável nesta obra de Salinas, um profundo silêncio, em que o sangue ao correr pelas palavras, ao lê-las, temos a mesma experiência de afetos que, penso eu, às vezes não sabemos o que dizer após sua leitura. Resta-nos o sentimento de nada, de que tudo foi destruído e que é preciso criar uma linguagem nova para dizer alguma coisa. 

Há outro elemento que deve ser mencionado aqui e que nos chama atenção. Trata-se de uma obra memorialista, algo que não é muito comum vindo de alguém da filosofia. Aliado a isso, sua forma de escrita, muito bem elaborada em junção com o diálogo constante, Salinas faz algo que poucos fazem, usar a memória, a alegoria e sobretudo, a ironia como elementos fundamentais desta obra. Eis que aqui temos uma obra eminentemente filosófica, única e capaz de narrar uma experiência que nos cala diante de tanta brutalidade e banalidade do mal. 


II

Podemos aprender duas coisas com a leitura de retrato calado. Que a história não se esquece, por mais que o momento histórico vivido esteja completamente esquecido, basta uma movimentação diferente para que aqueles fatos pretensamente esquecidos voltem à tona. Outra questão. Que as memórias escritas por inúmeras pessoas, mesmo que ainda não sejam suficientes para os esclarecimentos necessários da experiência vivida, está nos evidenciando que o passado está nos atormentando a todo instante. E mesmo que a justiça brasileira em suas decisões bizarras quanto ao tratamento da ditadura militar seja o mais escandaloso possível, temos os escritos memorialísticos como elementos fundamentais para compreensão do que foi este assombroso período e que ainda é uma ferida aberta para muitos indivíduos, mesmo aqueles que não viveram este período, como é o meu caso, mas que em certo sentido experiência os males e as dores por meio de conversas, leitura e escuta. Trata-se sobretudo, de um gesto de um ser humano que está presenciando cotidianamente à volta de uma extrema direita e com isso, tais valores que são banidos por nós lutadores de justiça e verdade, estão voltando com força. 

A escrita de Salinas, diante de tanto assombro, se torna, portanto, seu único recurso de expressão. 


Dicas de leitura: 

Gostaria de indicar obviamente a leitura de "Retrato calado" e o depoimento da professora de Filosofia da Universidade de São Paulo (Usp) Marilena de Souza Chauí. Além de comovente e muito esclarecedor, há muito que aprender nas palavras de Chauí. 

Está disponível no Youtube no seguinte link.  

https://www.youtube.com/watch?v=1M9Vvm6IQk  

Aqui há uma profunda reflexão acerca do que é este retrato calado e como é possível a construção da experiência da dor. Recomendo que vejam. 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O mito da razão única

Notas sobre a manifestação da falsa consciência no caso da Venezuela

Saber e experiência. Notas.