Diário de uma tristeza comum: rememorações subterrâneas de um genocídio. Resenha.

 Autor: Mahmoud Darwish

Tamanho: 176 páginas

Editora: Tabla

Ano  de publicação: 1973. Edição de 2024

ISBN: 9786586824797


Um dos tópicos básicos da educação  israelense, o tópico principal na ordem das prioridades sionistas, é manter a consciência geral permanentemente focada na memória como forma de mobilizar o sentimento nacionalista.”(p.30)

Mahmoud Darwish é da poesia. Diário de uma tristeza comum é o primeiro livro escrito em prosa. Trata-se de um conjunto de ensaios publicados em 1973 em Beirute. Estes ensaios autobiográficos recuperam o passado do autor na Palestina ocupada. As experiências da Nakba, deslocamentos e muitas vivências entrelaçando um olhar dialético sobre a vida e o mundo, traçam uma importante reflexão para o leitor de hoje conhecer de fato a história do projeto colonial sionista e seus pressupostos. 


O livro que agora resenhamos traz narrativas envolventes, relembrando que por debaixo daqueles escombros existiram muitas vidas violadas em nome da ideologia sionista que, em tom de chantagem emocional, sequestram o holocausto como justificativa para opressão contra os palestinos. 

Em Diário de uma tristeza comum Mahmoud Darwish defende o direito do povo palestino ter sua história, sua cultura e sobretudo, suas terras sequestradas de volta. 

Em um mundo cada vez mais habitado pela distorção do signo ideológico, ler uma história por quem realmente viveu o processo de destruição da Palestina é salutar. Mas não é somente isso. Nesta história é possível ver de maneira nítida em todas as linhas que se lê, algo que a filósofa Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. E com cenas que duvidamos até certo ponto se é verdade ou não, (pelo grau de desumanidade dos sionistas) soldados israelenses cometem crimes com requintes de crueldades e sobretudo sadismo. É muito comum tais cenas serem vistas em redes sociais. Soldados dedicando a morte e destruição de algum edifício ao seu filho ou a algum ente querido. 

O que faz um ser humano agir de tal maneira?

Pensamos com a lógica da história. A resposta para tal pergunta é: ideologia. 

Como vocês devem saber, ideologia é sobretudo a construção de uma ideia sobre algo. Bakhtin, filósofo russo, dizia que todo signo ideológico (que são objetos materiais ou não) são ideológicos por excelência. Alguns objetos ou construção deles ganham significações mais fidedignas à realidade, outras, são completamente díspares e obedecem a um papel. A manutenção da ordem dominante. É assim o processo de luta de classes em qualquer parte do planeta. 

Um trecho que cito nos diz muito sobre seu processo histórico e memorialístico contido na obra: 

(...) Toda vez que volta de mãos vazias, você olha para a varanda das casas e se pergunta sobre seus donos, ausentes nos ventos da emigração e do exílio. Quantas casas foram erguidas por proprietários que já não moram nelas? 

O entrelaçamento entre história e memória é um dos fios condutores da obra de Darwich. Mas não é somente isso, o processo de desenvolvimento colonial, o projeto sionista e ao mesmo tempo, a denúncia das violência constituída e travestida de uma narrativa religiosa sequestrada pela ideologia sionista e travestida de um tom judaico, talvez seja o ponto central desta obra que não podemos esquecer. E cabe dizer ainda que, um dos pontos fundamentais de todo projeto colonial é fazer uso da religião e distorcê-la para o uso conforme seu ponto de vista. A este respeito temos a reflexão de Mikhail Bakhtin que, vai denominar tais ações de refração da realidade. Seu papel é distorcer o significado de algo para o uso conforme o projeto de poder. É isso que os sionistas vêm fazendo ao longo dos anos. Usar a narrativa judaica, a comoção provocada pelo nazismo e todo processo de destruição deste grupo para justificativa das ações contra o povo palestino e quem se mostra contrário a tais ações, denunciando as atrocidades sionistas diante dos palestinos, eles tentam usar a narrativa de quem é anti sionista é antisemita. 

Tais ações são repletas de falsidade. Uma vez que ser anti sionista não é ser antisemita. O sionismo é uma ideologia que está impregnada dentro da religião judaica e se usa dela como projeto de poder. E isso, nosso caro escritor/poeta que aqui resumimos deixa muito bem entendido para quem deseja ler esta obra fundamental para a compreensão deste processo de genocídio em andamento. 

Uma questão fundamental é colocada na obra e nos serve como reflexão sobre o papel da história nesses processos: “qual a relação entre os conquistadores e essas pedras, essas águas e essas árvores?”.

O livro termina com um tom que é o mesmo desde o começo. A denúncia, a memória e a importância da história para esclarecimento (no sentido kantiano do termo) desses processos. 






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