Um ser à destruição do outro ser: sobre a causa palestina.
I
Começo dizendo que se faz mais do que necessário a filosofia brasileira pensar os problemas contemporâneos. Em específico, nós latino americanos, brasileiros, colonizados até o último fio de cabelo, não temos o costume de pensar com a própria cabeça. Eu mesmo durante décadas, desde minha entrada na graduação, até o doutorado, pensei com a cabeça dos outros. Formei-me com um PHD nos Estados Unidos, uma formação sólida, mas fraca no que diz respeito à causa brasileira/latino americana. Somente após o doutorado comecei a entrar em contato com obras que explicam nossa região. Isso é um exemplo de colonialismo!
Sabia muita coisa fora do meu país, mas nada a respeito de nós hermanos.
Claro que a questão colocada aqui rende pano pra manga. O que seria pensar com a cabeça dos outros? O conhecimento ao longo dos anos não é fruto de inúmeras interações entre os homens? E como seria possível pensar com a própria cabeça?
Começo a dizer que pensar desta maneira colocada anteriormente é assumir-se enquanto sujeito da própria história. Até o momento nos colocamos como atores sociais que não desempenham autoria em quase nada. Pois, ainda sendo filho de uma formação de departamento ultramar, esta síndrome de vira-lata nos impede de elaborar nossos próprios registros e assim ousar a si mesmo na formação de qualquer registro.
O que quero fazer aqui é um exercício demasiadamente difícil, mas permito-me a isso. Pensar a questão da causa palestina sob o ponto de vista filosófico. Uma filosofia que se faz prática e diante do genocídio que vem ocorredo se necessário uma pequena construção, de modo a contribuir para a expansão do pensamento que se faz ação, e não somente um pensamento que se faz pensamento.
II
Começo minha exposição com o seguinte dado, observado de maneira cotidiana.
Desde o início do genocídio contra o povo palestino promovido pelo Estado Nazisionista de Israel, ou seja, da primeira Nakba até os dias atuais, o número de mortos é incalculável. Sendo assim, como é possível chamar isso de “guerra”ou falar abstratamente de violência de dois lados?
Edward Said tem uma citação interessante retirada de Weitz, uma espécie de diário bem elucidativo sobre a questão exposta aqui.
“após a Segunda Guerra Mundial, a questão das terras de Israel e a questão dos judeus foram levadas para além do contexto do “desenvolvimento” entre nós mesmos. É preciso que fique claro que não há espaço para dois povos neste país. Nenhum “desenvolvimento” nos aproximará de nosso objetivo, que é ser um povo independente neste pequeno país. Se os árabes deixarem o país, ele será grande e vasto para nos. Se os árabes ficaram, o país continuará acanhado e miserável. Quando a guerra acabar e os ingleses tiverem vencido, quando os juízes estiverem sentados no trono da lei, nosso povo levará até eles suas petições e reivindicações; e a única solução é a terra de Israel, ou ao menos a Terra de Israel ocidental, sem árabes. Não há margem para concessões nessa questão!
Se você é uma pessoa preocupada com o que ocorre no mundo e lê atentamente os fatos, sabe que esta narrativa sobre a guerra de Israel contra o Hamas é falsa. Eis a primeira questão que deve ser posta. Trata daquilo que o historiador Ilan Pappe chama de limpeza étnica. Um processo sistemático de destruição de um povo, de sua vida, sua história. Transformá-lo em um não-ser.
Nossa mídia ocidental tem utilizado cada vez mais a bandeira de Israel. Um país que há pelo menos 75 anos vem massacrando o povo palestino sem dó e piedade. Acabar/matar um grupo étnico, considerado inferior, logo, portanto, destituído de humanidade em detrimento de outro grupo considerado civilizado, humano e bem educado. Eis o objetivo do Estado nazisionista.
Os palestinos cotidianamente têm sido vítimas de um argumento que não se verifica na realidade. O tal da terra prometida, os filhos de Sião. Para isso, estão fazendo o que for necessário para limpar por completo os árabes palestinos de suas terras.
Das inúmeras guerras que há no mundo, o “estado de Israel” se utiliza de ideologias para enganar seu povo. Por meio dos Aparelhos ideológicos do Estado, sua burguesia vem promovendo por meio da educação e propaganda ensinamentos que atravessam livros didáticos. Uma história distorcida e repleta de invenções sobre o passado.
Desde a tenra infância ensinam as crianças e jovens a serem reacionárias e alimentam o ódio dia a dia.
III
Mas não é somente isso. O pacto da mídia sobre a causa palestina é inexistente. O que existe é a luta de Israel contra o Hamas. E a partir desta perspectiva há um movimento tático: o recorte da história e a leitura completamente maniqueísta sobre a luta. Israel sendo o bem da história e o Hamas, os maus. Vejam que interessante. Nesta narrativa, os palestinos sequer aparecem. São negados desde o início da notícia. Com isso, são ignorados.
É com esta visão, muito bem elaborada e sobretudo tática, que grande parte das pessoas fazem suas cabeças e transmitem este saber a outros. Formando uma rede interminável de refrações da realidade.
A pergunta a se colocar é: como é possível chamar de guerra uma ação que historicamente é fruto de um processo colonizador e racista? Sim. O estado de Israel nasce e nasceu sob o pretexto de um projeto nacionalista que, em sua raíz, para poder existir e prosperar, foi preciso colonizar, matar e apagar da memória qualquer resquício envolvente sobre a Palestina.
É esse o ponto central da causa Israelita. Construir um Estado Judeu para Judeus. E para que isto aconteça é necessário um forte processo de desumanização israelense para com o povo Palestino. É neste contexto que a escola se mostra um grande Aparelho ideológico do Estado com inúmeras narrativas sobre os Palestinos.
Edward Said nos mostra em sua obra A causa Palestina que, “a literatura infantil está repleta de judeus corajosos que sempre acabam matando árabes traiçoeiros e inferiores, batizados de Mastoul (louco), Bandura (Tomate) ou Bukra (Amanhã). Como disse um jornalista do haaretz, em 20 de setembro de 1974, os livros infantis “tratam do nosso tema: o árabe assassina judeus por prazer, e o garoto judeu puro que derrota “o canalha covarde!”.
São essas ideias que produzem livros para consumo em massa. Tais ideias são consequência de um Estado racista, colonialista e conivente com tais processos.
Veja. Acima de tudo o que há é um ideal civilizatório, onde o árabe, visto como um selvagem sem humanidade que precisa ser eliminado do espaço que ocupa.
O Estado Sionista não deixa suas ações tão à mostra. Se valem da religião e se apropriam de uma narrativa refratada para avançar em seus propósitos.
Pelo exposto aqui, já sabemos dos objetivos Israelenses. Limpar o território palestino com a mais brutal violência transformada em cotidiano. Mas como há uma parafernália de aparelhos ideológicos do estado, muitos setores se aproveitam da guerra para ganhar dinheiro com a venda dde armas, não se importando com o que ocorre por lá. Não se trata de uma questão de piedade, oral ou ética, no capitalismo o que importa são os lucros e por esta razão os aparelhos ideológicos do estado fazem o seu papel de metamorfosear a realidade, de modo que aqueles que apanham, enxrrguem a realidade de maneira muito distorcida.
Mas a história, parafraseando Fidel Castro, nos absolverá, estamos do lado correto. Mesmoo que joguemos palavras ao vento.
Comentários
Postar um comentário