MARIA FIRMINA DOS REIS E O DISCURSO ANTIESCRAVISTA
I
Maria Firmina dos Reis (1822-1917) é considerada a primeira escritora negra e abolicionista da América Latina. Publicou sua obra no século XIX e permaneceu no ostracismo durante cerca de 100 anos, até ser redescoberta em 1973 pelo historiador Horácio de Almeida e desde então teses, dissertações e biografias vem sendo produzidas, de modo a entender as nuances, ideias e faces desta mulher que, em certo sentido, descreveu um Brasil sob o ponto de vista daqueles que sofrem; no caso, os escravos e as mulheres.
Cabe colocar aqui nestas palavras algumas notas. Primeiro. Foi uma mulher à frente de seu tempo. Pois o nobre leitor deve saber que no século XIX os papéis femininos eram bem descritos, mas está autora não sossegou e não aceitou ser somente uma esposa que fica à espera do marido. Se alfabetizou, não se sabe como. Se foi à escola, mas tudo leva a crer que aprendeu as letras de maneira autônoma. Teve acesso à grandes escritores em língua francesa e inglesa e desenvolveu uma forte consciência política muito à frente de seu tempo.
Para se ter ideia de seus pensamentos, vamos lembrar um caso.
Em 1847, é a única aprovada num concurso estadual para cadeira de instrução primária, na Vila de Guimarães, Maranhão. Em 1880 conquistou o primeiro lugar na História da Educação Brasileira, na mesma província do Maranhão, tornando-se a “Mestra Régia”, como se dizia na época, ao se referirem a uma personalidade educacional.
Há mais um feito. Aos 55 anos de idade, funda uma escola de primeira letras, de caráter misto. O que para época era algo totalmente revolucionário. Além do mais, tratava-se de uma escola gratuita. Lembre-se. Estamos no século XIX, onde a maioria das pessoas eram analfabetas.
A autora faleceu no ano de 1822, aos 92 anos de idade, pobre e cega.
II
A escrita de Maria Firmina dos Reis encontra-se em um país que possui uma literatura abolicionista muito peculiar que, se caracterizava por ter surgido tardiamente e há duas razões para tal afirmação. Primeiro se refere que, esses autores, personagens afros eram, na literatura anterior à década de 1850 muito escassos e quando surgiam no papel de escravos, suas produções literárias se resumiam única e exclusivamente a produções superficiais e distanciadas. Mesmo com a presença maciça da população africana nestas terras e de seus afrodescendentes, o país não encontrava contrapartida na literatura. Claro, havia alguns escritores que tematizavam a questão do negro e suas condições, como por exemplo: Machado de Assis, Luis Gama e posteriormente, Lima Barreto. No entanto, nenhum personagem afrodescendente crescia a ponto de captar atenção ou tornar-se foco da narrativa. Maria Firmina dos Reis é pioneira justamente por colocar o negro no centro da atenção do debate, não como objeto, mas como.aujeito da sujeito da história. E não simplesmente um sujeito. Um ser crítico. Eis a chave da questão.
Através de seus textos, destaca-se em específico, Úrsula e o conto, A escrava, é possível notar de antemão a representação e cotidiano que escravos e mulheres tinham naquele contexto, bem como também, o protagonismo desses sujeitos oprimidos ao longo de toda sua vida. Mas não trata-se somente de um relato específico do cotidiano, evidencia-se em seus escritos uma interpretação de um certo Brasil colonial e sobretudo, escravocrata.
Lembremos. As dificuldades de inserção no meio literário seja pela baixa escolaridade e pelos estigmas a elas atribuídos, o lugar social do feminino era bem delimitado, além da existência do analfabetismo reinante, havia o impedimento de transitar em determinados lugar de fala e de poder. Por esta razão, nota-se a extraordinária mulher que foi Maria Firmina dos Reis.
Conhecer o Brasil não é somente com história, literatura nos fornece um belo panorama desse país. Podemos ler isso em Machado de Assis, Lima Barreto e tantos outros autores. E Maria Firmina dos Reis é uma dessas que nos fornece a visão do escravo diante de um Brasil apequenado, alienante e sobretudo, racista.
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