08 DE JANEIRO: ESPECTRO DE UMA HERANÇA AUTORITÁRIA

 

I

Precisamos começar levar a sério a memória enquanto agente político e ideológico neste país. Digo estas palavras pela simples constatação. Os militares venceram a batalha da memória brasileira e não somente isso. Desde o fim a ditadura de 1964, até os dias de hoje, temos heranças profundas que nos atormentam e não nos deixam esquecer.

Exemplos. Os ataques de 08 de Janeiro de 2022 que tentaram a derrubada da democracia não foram uma zoada pura e simplesmente de algumas pessoas alopradas. Trata-se de algo que venho chamando desde a publicação de meu livro sobre o Golpe contra Dilma Rousseff de Arquitetura do Golpe.

Publicado logo depois do Golpe, neste livro demonstro como forças políticas, empresariais, militares e ideológicas impediram a presidenta Dilma de dar continuidade em seu mandato, abrindo portas para seu Vice Presidente Michel Temer. Iniciava-se ali um caminho duro para a austeridade fiscal que, estamos colhendo até os dias de hoje.

Mas não é somente isso, em 2016, as portas para o novo fascismo brasileiro já estavam abertas. E este fenômeno político teve sua gênese nas n=manifestações de 2013. E o desenrolar desta falsa consciência posta está impregnada até as entranhas em muitos setores da sociedade brasileiras, inclusive nas instituições de Estado.

Um documento que detalha bem as heranças autoritárias de 64 é o relatório da polícia federal sobre a tentativa de golpe de estado ocorrido em 08 de janeiro. Trata-se não somente de um relatório de inquérito. É muito mais que isso. O documento em si, muito bem escrito e elaborado, repleto de citações e fontes documentais, demonstra e prova como organizações criminosas tentaram com a democracia brasileira, planejando inclusive o assassinato de autoridades políticas, tais como: o Ministro do Supremo Federal, Alexandre de Moraes, o Vice Presidente, Geraldo Alckmin e o Presidente da República, Lula. ]

Este documento mostra como tais agentes políticos, empresários, padres e militares tentaram fazer uma organização antes, no momento e depois do golpe, contando com incitação bem planejada das forças armadas para ajuda no golpe e contando também como um setor de inteligência paralela (lembram de algum canal de revisionismo histórico semelhante a este nome?) e por fim, contavam com um setor jurídico e coercitivo pós golpe.

II

Feitas estas preleções, já é possível notar que as entranhas de certo autoritarismo brasileiro ainda não foram totalmente extirpadas. Isso porque nenhum governo até os dias de hoje teve coragem o suficiente debater a questão da reforma educacional dos militares e os aspectos ideológicos nocivos que estão embrenhados neste setor.

Quando lemos, por exemplo, o texto de Paulo Arantes intitulado simplesmente de 1964 e seu questionamento inicial: O que resta da ditadura? e sua resposta é: tudo, menos a ditadura, entendemos as raízes profundas que há em vários setores da sociedade brasileira que foram jogados para debaixo do tapete.

Esta data, 08 de janeiro, entendamos. Não se trata de um dia em que aloprados resolveram gritar por intervenção militar. Por detrás deste irracionalismo, houve uma organização muito bem pensada para antes, no momento e depois do golpe. E agentes do estado democrático de direito participaram diretamente destas ações, com planejamento de assassinatos, distorção ideológica por meio do conteúdos produzidos em internet e para depois, ações coercitivas pensadas e organizadas quando o golpe estivesse consumado.

Mas o golpe não deu certo.

Devemos comemorar?

Não.

III

Quando falo em memória, lembro-me de pessoas como Paul Riccouer e Walter Benjamin. Precisamos trabalhar a memória sobre aquilo que o professor Romero Venâncio vem apontando em suas lives no instagram, sobre três perspectivas: 1) memória enquanto lembrança, 2) memória  na luta contra o esquecimento, 3) memória enquanto política pública. Só assim poderemos levar adiante o passado como reflexo do presente, de modo que entendamos de fato o que significam tais ações. Ou, desenvolver um profundo trabalho educacional, seja em instituições públicas e fora delas, mas com apoios estatais, de modo que o compromisso com a verdade esteja em primeiro lugar. Só assim, poderemos construir uma ideologia nacional, no qual o povo esteja embrenhado desta enquanto coletividade.

Importante. Esta ideologia não pode surgir abstratamente por meio de agentes iluminados. Esta tem de estar concatenada com a realidade nacional, de modo que todos possam compreender as raízes profundas de tais acontecimentos. Por esta razão, o estado desempenha um papel fundamental sobre tais ações enquanto agente organizador de ações, não como agente iluminador de mentes.

A ideologia nacional para dar certo, tem de ser aquilo que o filósofo Álvaro Vieira Pinto aponta-nos em seu livro Ideologia e desenvolvimento nacional. Tem de ser coletivo, estar embrenhada no povo brasileiro. Só assim é possível falar em algum desenvolvimento. Sem isso, a memória pensada nestas três pensativas, ficará ao alcance de pessoas especializadas em temas. Nada mais.

Enquanto isso não acontece, a herança autoritária segue avançando. Não somente no Brasil. Ao redor de inúmeros países.   

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