BLOCO DO EU SOZINHO: NOTAS SOBRE A SUBJETIVAÇÃO DAS COISAS
Edward Hoppe. Automat (1927)
Fala-se demasiadamente sobre os acontecimentos da sociedade e em muitos casos, opta-se por analisar as coisas de um ponto de vista particular, sem ao menos fazer relações com a história, cultura, política e todas as possibilidades e contradições derivadas da realidade. Sem este exercício, dedicar-se à totalidade e suas contradições é impossível.
Geralmente, estas análises, em grande medida personalizadas tem como único objetivo colocar só sujeito no foco da atenção, desconsiderando três blocos importantes: 1) o uso da razão dialética - ou seja, racionalidade que leva em consideração o complexo de contradições, 2) o uso da história para compreensão dos fenômenos e sua totalidade, 3) o humanismo, que em pleno século XXI as pessoas estão fincadas naquilo que eu chamo de bloco do eu sozinho.
Estes três itens começaram a perder espaço na sociedade desde que a filosofia em meados do século XIX começou a descambar da razão dialética para uma espécie de intuição, desconsiderando a totalidade, para analisar criticamente o eu interior. Quem descreve isso de maneira bem detalhada é Lukács em sua obra A destruição da razão.
Como sabem, as ideias não caem do nada, elas são resultados da sociedade e de seu modo de produção inseridos naquele contexto. Portanto, o ponto inicial de entender este desenvolvimento de processo é perceber o avanço do capitalismo nos países desenvolvidos, ao mesmo tempo como as ciências e humanidades representam este processo.
Desde que o capitalismo ganhou força, seus representantes começaram a desenvolver ideias que se encaixaram como uma luva. O exemplo mais claro disso foi o uso de filosofias que decretam o fim das grandes narrativas e portanto, o fim da história. Mas de que maneira isso influencia os dias atuais? É possível ver isso no cotidiano?
O primeiro item que gostaria de destacar e que é claro na sociedade é a relativização da verdade. Esta noção tornou-se subjetiva e as análises partem de uma certa intuição, aquilo que o velho Platão chamava de doxa, ou seja, opinião.
Tudo é questão de ponto de vista! Pelo menos é assim hoje. E nas redes sociais isso se intensificou ainda mais.
Com a destruição da história e o avanço da doxa, impera o reino subjetivo; variedades de verdades, como se entender a realidade e o mundo que nos cerca fosse baseado em opiniões. É justamente essa opinião que cega grande parte das pessoas a se manterem no reino da doxa.
Por fim, com a destruição do humanismo, colocou-se em seu lugar fatos mitológicos, narrativas que buscam outras construções baseadas em coisas que não estão calcadas na realidade e cujo sentido, o homem não está mais no centro da discussão. Como há o império do bloco do eu sozinho, impera o relativismo também.
Com o avanço de uma ideologia que prega o homem descabido de qualquer alteridade, cujo objetivo é o alcance constante de metas, confunde-se a vida como se fosse uma meta constante. Não há espaço para formação do espírito, há apenas a busca incessante por resultados.
O homem tornou-se responsável por si mesmo. Abandonado por todos, resta carregar o peso do mundo todos os dias e não há ninguém ao seu lado.
A morte de Deus anunciada por Nietzsche, porque o homem não leva mais em consideração suas palavras e seus ensinamentos, é resultado deste avanço de irracionalismo, cujo resultado é o que vemos exatamente hoje.
Todos contra todos e ninguém por ninguém.
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