O mundo do capital: reflexões de um tempo.

 

Guernica (1937) – Pablo Picasso

Uma obra que reflete bem o poder destrutivo do capital

I

Uma das características do capitalismo  contemporâneo é tirar de todo ser humano a identidade cultural gestada em seu povo para lhes fornecer/impor uma normatividade repleta de fetiche. Isso mesmo. Fetiche. E tal palavra não é colocada à toa. Pois pense, em um sistema cujo sentido de sucesso está intrinsecamente ligado aos processos de desastres e de encobrimento do outro, perceber tais nuances não é tão simples assim. Quem acorda tem a exata medida da citação colocada aqui acima, uma espécie de pesadelo, cujo resultado é um longo processo de reconstrução de si mesmo.  Às vezes, o contrário nos faz acordar e pensar em um modo de produção, cujo resultado só pode ser a destruição por completo da vida, muitas vezes, é o pesadelo de uma extensão de vidas inteiras.


Não é à toa que, por esta razão que no século XXI há tanta procura por curas milagrosas. 


II

Consequentemente aos processos de desastres, há uma crise psíquica andando a pleno vapor. Desde a tenra infância somos moldados a pensar como pensamos. Ou você acha que as ideias que temos são fatores decorrentes de nossa existência? 

Muitos pensam que nossas ações são decorrentes de nossos pensamentos, mas em grande medida não é bem assim que ocorre. Há aparelhos ideológicos do estado responsáveis por nossa formação. E quando pensamos, não pensamos, mas pensamos que pensamos. 


III

Tais fatores trazem à tona uma nova forma de barbárie. A destruição da experiência. Toda memória cultural fica de lado e solapado a todo instante, os ausentes de plantão observam tais fatos sem perceber realmente o que aconteceu. E quando acordam? Tarde demais. O mundo tornou-se outro e o fluxo contínuo das coisas seguiu seu plano como se fosse algo natural. 


IV

Não obstante a tudo isso, a história do capitalismo é sem dúvida, um processo de desastre, mas poucos percebem. Pois como já havia dito, os aparelhos ideológicos do estado, fazem você crer em uma história de desenvolvimento natural, como se isso brotasse em uma árvore e todo seu processo de desenvolvimento seguisse um curso de imensa tranquilidade. 

Tem-se aí uma visão tosca de natureza, como se os processos de tais ações fossem tão harmônicos como uma sinfonia.

Ledo engano! 


V

Se não bastasse o desastre das cidades como um todo, a destruição da psique tornou-se tão comum desde a gênese do capitalismo. É só ler A história da riqueza do homem, e tirar suas conclusões. 

O desenvolvimento do sistema capitalista como um todo, para atingir sua plenitude, seu grau máximo de progresso, só pode vir mediante a destruição criadora, que inclui a deformação da psique e todos os sentidos existentes nos corpos humanos, inclusive dos animais servidores de alimentos e mercadorias  para necessidades humanas. 

Eis o perigo que nos ronda e sequer percebemos. Agir de maneira mecânica, como se achássemos que estamos pensando alguma coisa. Mas não estamos. E dentro deste processo de desastre, as doses homeopáticas que nos é enfiada cotidianamente é um processo de construção de inúmeras subjetividades que, agindo inconscientemente, ao longo dos anos surgem os sintomas mórbidos refletidos de moralidades.


VI

Sintomas que são resultados não das subjetividades dos indivíduos, mas dos Aparelhos ideológicos do Estado, que constituem nosso inconsciente e que por meio do uso da linguagem expressamos o que nos constitui. 

Não há como fugir deste estado epidêmico. 


VII

Walter Benjamin dizia que a era moderna era a era do inferno. Nosso castigo, é a novidade do momento." E a última novidade é sempre a mesma coisa que se repete. 

Creio que o mundo contemporâneo aprofundou a questão a tal ponto que, entre as vitrines que nos cegam cotidianamente, consomem nossos pensamentos, regredindo-nos ao estado mais primitivo e mitológico. Uma compulsão, cujo resultado só pode desencadear em patologias do contemporâneo. A aceleração do tempo, é apenas uma dentre tantas. 

É assim que estamos vivendo. Um eterno pesadelo de retornos dos mesmos. 

Mas não sabemos. 


VIII

A crescente precarização do homem contemporâneo passa por um modelo de formação. Na tentativa de organização das massas, o capitalismo afeta nossa psique por meio de processos inconscientes que dizem o tempo inteiro o que devemos fazer. O resultado lógico disso é a introdução de uma estética pobre e destrutiva de si mesmo.

Todos os esforços para formar os homens vem desde a mais tenra infância. Daí a questão de ser um processo consciente, pois o sujeito não sabe como e porque age de tal forma, mas manifesta muitos sintomas mórbidos acerca de seu tempo e sua vida.   


IX

Outro elemento muito ausente nos tempos contemporâneos é o silêncio. Em tempos de extremo barulho, onde todos querem dizer algo, manter a quietude dos dias parece ser uma necessidade para o avanço espiritual. E quando falo em avanço espiritual, refiro-me a nossa construção interior que está cada vez mais terceirizada. 

Precisamos nos conhecer de maneira profunda. Tal como Dante em sua Divina Comédia, descer ao inferno, às vezes, torna-se necessário e urgente.   


X

Os três mestres da suspeita dito por Paul Ricoeur são mais que necessários. Urgentes! 

Marx, com sua crítica feroz sobre o sistema capitalista, é ainda a crítica mais radical existente. Enquanto houver capitalismo, Marx será insuperável. 

Darwin, com sua teoria da evolução das espécies, nos forneceu uma forma de ver o mundo e a constituição dos seres de uma maneira extremamente original, mas que causou um tormento terrível para o autor, devido sua religiosidade. Não é à toa que protelou ao máximo a publicação da origem das espécies. Sua teoria é motivo de polêmica até os dias de hoje! 

O que dizer de Freud e sua descoberta do inconsciente? Embora este não tenha a criado, mas sim, sistematizado através de leituras de filósofos e poetas, o próprio Freud assim diz, - temos aqui uma explicação dialética tensionada entre objetivismo e subjetivismo. 

A revolução é: temos instintos dos quais não controlamos, não somos senhores de nossas casas e por isso precisamos de civilização para viver. 

O que faço com tais instintos em um mundo capitalista e repleto de evolução? 

Eis o questionamento filosófico em si mesmo.


 

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