NEUROSE
É consenso que neurose, afecções psíquicas sem substrato anatômico, detectável, esteja ligada ao conflito intrapsíquico entre ideias fantasmáticas inconscientes, associadas ao Complexo de Édipo, e às defesas que elas suscitam. Ou seja, do ponto de vista dinâmico define-se por uma tomada de posição do ego (sob a influência do superego) a favor do princípio de realidade em detrimento do princípio do prazer e, de modo geral, de todas as exigências pulsionais do id)tendo como consequência o surgimento de uma angústia de castração).
(...)
A passagem da modernidade para a pós-modernidade trouxe uma nova forma de ver o mundo que o fragmentou em todos os sentidos, e serviu como uma luva para os que depositam toda sua fé nas ações individuais e desconfiam demasiadamente de mudanças sociais mais amplas.
Essa passagem implicou e ainda continua implicando em alterações profundas na formação da psiquê e subjetividades dos indivíduos. Nesta era marcada pelo questionamento das certezas absolutas, da qual Zygmunt Bauman nomeou de era líquida, as grandes narrativas deixam de fazer sentido, dando lugar a fatos menores, que por um lado, deixa o indivíduo isolado, vulnerável e cansado de si mesmo. Tais ações trazem em si mudanças perceptíveis a qualquer que deseja ver ou perceber: os laços sociais, a passagem da família extensa para família nuclear, a valorização do individualismo competitivo, a ênfase na sociedade do espetáculo (no sentido crivado por Guy Debord) , o avanço no uso excessivo de informações, empobrecimento da experiência (no sentido benjaminiano do termo), entre tantos outros que poderíamos colocar aqui, contribuem de maneira significativa para o empobrecimento da vida interior e sobretudo, social. É neste mesmo contexto social que vemos um avanço significativo da depressão, competição e individualismo.
Desde o avanço industrial e informático, é cada vez mais perceptível o crescimento de doenças psíquicas. O neoliberalismo como forma de organização da vida, trouxe a tão sonhada liberdade, inclusive para o homem abandonar-se e auto escravizar-se.
Nesta nova ordem que causa tantos afetos, isso tem um nome hoje: flexibilização.
Abandonados de qualquer forma de princípio de prazer, sufocados pelo que Marcuse chama de princípio de desempenho, as organizações sociais possuem interesses cada vez mais intensificados em coações impostas ao trabalho, cujo objetivo não é mais a imposição em si, mas a difusão do discurso da liberdade que levam indivíduos a uma espécie de repressão, não no sentido clássico do termo, mas em uma forma complexa que, de maneira suave, pelas próprias mãos dos indivíduos que organizam seus instintos (cada vez mais reprimido, não por um senhor, mas por si mesmo) de acordo com o princípio de realidade.
Esta organização que ocorre nos dias de hoje não necessita mais de um senhor, muito pelo contrário, a liberdade aqui é aquilo que Byung Chul Han chama de episódica, ou seja, ocorre numa situação solta, isolada, pois, nós homens em grande medida estamos imersos nos mecanismos de ordenação de nossa vida psíquica e cotidiana e sequer percebemos.
Freud já nos havia alertado sobre algo semelhante em seu mal estar na civilização. Fala que existe um controle para que possamos viver em sociedade. Defende a ideia de que se a religião fosse extinta, outro sistema com características semelhantes seria criado. Ou seja, ao mesmo tempo em que quer se libertar, o homem cria freios a si mesmo. É exatamente isso que ocorre nos dias de hoje. Todas estas formas organizacionais que são criações humanas em grande medida são responsáveis também por nosso adoecimento psíquico. Muitas vezes não é assim que percebemos. Jogamos para o fundo do nosso inconsciente tais fenômenos como se fossem algo meramente interior.
II.
Freud e Marcuse nos oferecem pistas valiosas para a compreensão dos tempos em que estamos. A chave para abrir a porta que parece escura nos oferece uma vastidão de acontecimentos que nos permitem entender claramente que o sistema que vivemos, com todas as normativas organizacionais, sistemas de alienação, adoecimento e principalmente nossa constituição que nos permitem dizer que neurótico é a organização de nossa vida. Mas quem percebe tais nuances?
Por mais que haja variadas formas de organização da vida, o discernimento para entender permanece longe na medida em que é limitado. Ao serviço da ideologia repressiva, mitologias são depositadas nas mais diversas estratificações sociais e o sujeito do desempenho se esforça por preservar tais medidas. A cólera recorrente de uma organização de vida em meio a um ego sobrevivente às múltiplas manifestações de desejos e propagandas que lhe são impostas, forma a consciência de si, que, perdida em meio a tantos acontecimentos, acaba por seguir as normativas que são impostas. É neste contexto de liberdade episódica que surgem patologias que para grande parte das pessoas são encaradas como manifestações interiores do ser humano!
Com estes fenômenos cada vez mais comuns, a história e algumas mitologias parecem explicar o tempo atual. Sísifo voltou aos tempos contemporâneos de maneira visceral, mas com uma nova roupagem. Ao invés de caminharmos de maneira forçada por meio de uma condenação eterna a carregar uma pedra, hoje, fazemos isso de maneira voluntária. A lógica aqui que impera é a do sacrifício e muitos se orgulham de assim ser!
“Enquanto os indivíduos forem sacrificados, enquanto o sacrifício implicar a oposição a coletividade e o indivíduo, a impostura será uma componente objetiva do sacrifício" (Adorno, p.26)
Por causa dessa tensão toda explicada anteriormente, e principalmente entre Ego e Superego, e nisso Freud está correto, se alimenta uma necessidade de punição em si mesmo. Neste contexto, o mal estar, a culpa, advém de uma autoridade exterior e também medo do superego
Só resta uma pergunta: nesta lógica brutal, quem é o neurótico? De quem é a
culpa?

Comentários
Postar um comentário