Mal estar e ódio ao outro: notas de um mundo fragmentado.

 





Pablo Picasso, “Massacre na Coreia”, 1951. Foto: BPK/RMN-Grand Palais/Mathieu Rabeau/Succession Picasso/VG Bild-Kunst, Bonn 2021

I 


De uns tempos pra cá, especificamente 2014 em diante, quando houve a eleição da presidenta Dilma Rousseff, vemos a presença de inúmeras manifestações de ódio aos que pensam de maneira diferente. E mais, um ódio que parecia estar guardado no fundo do inconsciente e que de repente alcançou a consciência e se manifestou de maneira bárbara sobre o outro, o diferente, parte fundamental para constituição do eu que pensa diferente.  


Este ódio, que possui várias razões: políticas, econômicas, históricas, sociológicas e que em termos psicanalíticos, é o irmão rejeitado do amor, legitimado por lideranças políticas, trouxe à tona facetas escondidas a muitos indivíduos e que pareciam estar mal resolvidas no interior de muitos seres que encontraram legitimidade de expor suas ideias a partir do momento em que tais líderes começaram a dizer o que realmente pensam.


De que maneira tais condutas bárbaras e sobretudo, violentas impactam na atitude e desenvolvimento da psiquê de algumas pessoas? Será que podemos dizer que havia um ódio recalcado e que de repente, saiu da inconsciente e alçou a consciência? E mais, de que maneira a psicanálise pode explicar tais eventos?


Para entendermos tais questionamentos e chegarmos a alguma resposta, vamos expor algumas causas sociais deste mal estar que, parece ser a gênese ou ponto de partida da constituição deste ódio.

Desequilíbrio social e econômico:  Hoje 1% da população mundial possui a maioria das riquezas produzidas na Terra, e os 99% restantes são formados de miseráveis e classes média baixa, média e alta (Halimi, 2017). • Aumento dos homicídios: Mapa da violência (2016) – 59.627 homicídios por armas de fogo em 2014 – são mais de 160 pessoas assassinadas por dia no Brasil. (Bava, 2017)

Aumento dos homicídios: Mapa da violência (2016) – 59.627 homicídios por armas de fogo em 2014 – são mais de 160 pessoas assassinadas por dia no Brasil. (Bava, 2017)

Perda de pacto civilizatório mínimo que constitui uma nação: Acompanhamos pela mídia e pelas redes sociais – microcenas de horror (como o assassinato do carroceiro Ricardo no Bairro de Pinheiros; a tatuagem na testa de um adolescente acusado de roubo de bicicleta em São Bernardo do Campo; a demolição de uma casa onde havia pessoas, no centro da cidade de São Paulo) e microcenas de barbárie (anunciada e executada pelo capital – na regulação das relações entre capital e trabalho, que atualiza um ‘capitalismo selvagem’, com novas leis que retiram dos trabalhadores direitos trabalhistas e previdenciários) e composto por enredo perverso, que retiram os direitos sociais e de cidadania dos trabalhadores (Leite, 2017).


Há outras causas expostas por José Silva e que são importantes para a compreensão da expansão de tais fenômenos. Mas vamos esmiuçar neste momento apenas estes citados anteriormente, de modo a entendermos este fenômeno que assola o país. 


As três causas citadas mostram de maneira clara a situação do país e como em certo sentido afeta a psiquê dos indivíduos e como a partir de tais afetos são registrados atitudes de ódio, xenofobia, racismo, muito comum em nosso cotidiano e que são legitimadas em grande medida pela grande mídia e até por representantes do poder executivo a agir de maneira impulsiva, sobretudo, inconsciente.


A grande questão a saber é: de que maneira este ódio recalcado traz em si mal estar na convivência com o outro que, pensa diferente de mim? De que maneira a psicanálise pode nos ajudar a compreender tais acontecimentos?


II.


O filósofo coreano Byung Chul Han em seu interessante livro A sociedade do cansaço defende a tese de que estamos cansados de nós mesmos. Pois, a todo instante somos encorajados a buscar renovação, novidades e se superar para buscar o impossível. Isto em certa medida torna o indivíduo cansado de si mesmo e depressivo. Isto ocorre porque  vive-se em uma sociedade cada vez mais individualizada, na qual cada um vive por si mesmo e caso este não consiga, a responsabilidade é única e exclusiva dele mesmo. Neste regime neoliberal, cuja máxima pode-se ser resumida da seguinte maneira “yes, we can”, o indivíduo vive um excesso de positividade, do qual pode tudo a todo instante. 


E onde fica o outro que me constitui? 


Neste contexto hiper individualizado simplesmente não existe, e é por esta razão que muitos homens encontram-se depressivos


A organização da sociedade em que estamos atualmente é cunhada especificamente na busca incessante de prosperidade. As igrejas, comerciais de televisão e mídia em geral propagam isso. E este excesso de positividade, do qual cada indivíduo é responsável por si mesmo, faz com que cada um corra enlouquecidamente atrás da tal riqueza, e para isto, cada um se auto escraviza. Não conseguindo alcançar determinados resultados/metas alçados por ele mesmo, alcança-se o fracasso, e só ele é responsável por seu insucesso. É assim que diz a ideologia neoliberal.


Portanto, centrado no individualismo, a sociedade pode ser resumida da seguinte forma: “todos contra todos e ninguém com ninguém”. Sendo cada um por si mesmo, os pequenos gestos de solidariedade que surgem a partir de políticas públicas que pretendem diminuir as inúmeras desigualdades existentes entre as pessoas, em muitos casos são vistas como absurdas que devem ser combatidas. Uma vez que eu corro atrás das coisas e não recebo incentivo algum, porque tenho de aceitar tais ações que privilegiam algumas pessoas? Este é o discurso circulante em todos os setores.  


O ponto central que surge o ódio tem por incrível que pareça o fundamento nesta liberdade cunhada pela sociedade neoliberal. Uma vez que cada indivíduo é responsável por si mesmo, ele tem a liberdade para auto escravizar-se e assim este o faz e sequer em algum momento questiona o porquê das coisas serem assim. Seu ódio em relação a estes atos de solidariedade e aí outro que pensa diferente se dá em grande medida porque há uma certa idealização do outro como se fosse igual a mim, e que em certo sentido, acha ou pressupõe que a sociedade andasse de uma maneira só. Quando esta se diverge dos ideias construídos, ocorre discordância, mas não de maneira simples e democrática, ocorre de maneira odiosa, e às vezes, violenta.


Individualizados em si mesmos, divididos cada vez mais por conta de ideologias políticas  e partidárias, o que percebe que há nas relações sociais e a psicanálise nos ajuda nesse sentido a verificar que na relação do eu e tu, e que aqueles que pensam diferente de mim, criam mecanismos de defesa no funcionamento psíquico em relação às experiências do mundo externo que, para em alguns casos são altamente perturbadoras e desorganizadoras, pois mexem com toda idealização criadas em suas subjetividades. 


Neste contexto, dois mecanismos utilizados pelas subjetividades neuróticas são: a) Recalcamento e formação reativa. Em relação ao primeiro, trata-se de determinados conteúdos - produtos da experiência vivida desorganizador e que são reprimidos ao nível inconsciente, ficando limitados pela barreira do recalque. Em relação ao segundo, trata-se de uma proteção do ego em virtude de uma sinalização de desejo, ou seja, o indivíduo age de maneira oposta àquilo que deseja. 


Tais mecanismos de defesa são muitos comuns em pessoas que repudiam determinados posicionamentos relacionados a comportamentos morais, mas que no fundo, criam tais imagens porque criaram um certo ideal em suas mentes. Por esta razão, em muitos casos, agem de maneira agressiva. Pois, tais posicionamentos os desorganizam. 


A partir de tais esclarecimentos, podemos colocar a seguinte questão: há uma relação dialética entre o eu e tu? Em um contexto profundamente individualizado, intolerante, propulsionado por governos também intolerantes para com o outro, é possível haver este tipo de relação?


A única relação que ocorre dentro de um contexto que promove demasiadamente o seguinte lema: yes, we can, é o eu do bloco sozinho. O outro, ser importante para a constituição de mim mesmo, simplesmente não existe por uma simples razão: é preciso correr atrás da vida. O outro nos dias de hoje, soa como um concorrente e que portanto, não há tempo para estabelecer relações com concorrentes.   


III. 


Se em tempos anteriores da história havia relações dialéticas entre eu e tu, senhor e escravo, patrão e empregado, hoje, tudo depende única e exclusivamente de si mesmo. E é por esta razão que o sujeito contemporâneo se sente cansado, e sobretudo, depressivo. Cansaço este que é de si mesmo. Afinal de contas, tudo depende de si e o outro é praticamente inexistente nesta relação. 


Mesmo sabendo que tudo é fruto de seus esforços, parece evidente que tal ideologia introduziu a tal ponto um modo de comportamento de indivíduos que, qualquer ato que vise a ajuda ao outro, mesmo que este necessite realmente, cause tanta indignação. Mas é isto que ocorre. Discursos odiosos que, parecem frutos de recalcamento e de reações odiosas que querem silenciar quaisquer atos de solidariedade e condutas morais diferentes que soam como escândalo a estes. 


Como resultado a estes acontecimentos e parece natural em meio às consequências de cada indivíduos, o que surge é o sofrimento. A este respeito, Freud nos mostra que este segue em três direções: 


[...] de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens (FREUD, [1930] 1980, p. 95, grifos nossos).


Em relação a essas três direções, Freud destaca que o sofrimento advindo do relacionamento com os outros homens, na família, no Estado e na sociedade, talvez seja o mais penoso de todos.

Ultrapassando a citação de Freud, ao analisar os dados estatísticos levantados anteriormente, se analisarmos ainda mais detalhadamente o s casos de depressão e em que lugares estes estão, percebe-se que os grandes centros urbanos são os lugares onde há maiores índices de tal doença. E se fizermos um comparativo com a citação anterior de Freud, ainda que de maneira bem incipiente, pode-se perceber também que a causa de sofrimentos, na família, no Estado e na sociedade, os dois últimos talvez sejam os mais penosos.    

O que podemos concluir? Ainda que de maneira incipiente?


  1. O sujeito contemporâneo vive em uma sociedade que diz para ele: yes, we can. Carreiam a bandeira da liberdade , inclusive para auto escravizar-se. 

  2. O mal estar e as relações de ódio parecem ter gênese em recalcamentos, no qual, alguns indivíduos parecem ter criado em suas mentes determinados tipos ideais de sociedade e sobretudo, e os que saem fora dessa curva, são tratados com ódio.

  3. Não existe relações dialéticas entre eu e tu, uma vez que, calcado no individualismo, o outro, ser constituinte de mim mesmo, não é mais visto. É simplesmente ignorado. 

  4. O mal estar promovido pelo Estado e pela sociedade, sequer são questionados pelos indivíduos que sofrem. Sofrem sozinhos e grande parte de seus mal estar são frutos de causas externas. 

  5. Não alcançar as metas promovidas por si mesmo, causam cansaço de si mesmo.


 IV


Numa cultura capitalista encontra-se o sofrimento e cansaço de si mesmo em todas as partes. Fruto de uma sociedade, cujo lema é: yes, we can. O indivíduo sai enlouquecidamente atrás de uma vida melhor e quando não consegue, fica doente e cansado de si mesmo. Sequer questionam os motivos pelos quais tais fenômenos ocorreram e por essa razão encontram-se cansados.


Cunhado neste individualismo, qualquer ação social que vise o bem comum, para alguns, parece ser algo absurdo de acontecer. E por esta mesma razão surgem discursos de ódio, querendo anular qualquer ação que para estes é fruto de algum privilégio.


É preciso notar que o mal estar está externo ao sujeito, e não em seu interior. 


Entender esta máxima, é mudar completamente a visão de mundo.


Mas será realmente possível de acontecer?



Referências bibliográficas 


SILVA, José Antonio Pereira da. A psicanálise e o mal-estar na contemporaneidade. Estud  psicanal. [online]. 2017, n.48 [citado  2021-01-22], pp. 99-105 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372017000200011&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0100-3437 


HAN, Byung Chul. Psicopolítica, neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte. Editora Ayné. 2020. 


DUNKER,Christian e HOMEM, Maria Lúcia.  O ódio na pasicanálise.Disponívrl em:  https://youtu.be/-VqxOvb6-k4 . Data de acesso: 21 de dez de 2020. 


FREUD, S. Totem e tabu (1913). In: ______. Totem e tabu e outros trabalhos (1913-1914). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 13-191. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 13).   


VEJA,Revista. IBGE: crescimento da depressão é realidade no Brasil | VEJA RIO (abril.com.br) . Data de acesso: 20 de dez de 2020. 


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