FORMAÇÃO E LEITURA DO HOMEM
Em meio à tanta loucura em nome da “razão”, a crítica cedeu lugar à doxologia.
Lembro muito bem quando Umberto Eco, o grande escritor e posso dizer, filósofo, escreveu sobre as redes sociais, que estas haviam dado voz aos imbecis, confesso que classifiquei essa colocação como elitista, mas, ao olhar o nível dos debates e aquilo que Carlos Nelson Coutinho nomeou de miséria da razão, ou seja, a perda do horizonte humanista, a razão dialética e a história, o que vemos é um monte de falas subjetivas que, tentam justificar determinados fatos sob a ótica do achismo, ou seja, da mera opinião.
O grande exemplo disso foi o debate envolvendo Ciro Gomes e Gregório Duvivier, uma verdadeira pobreza intelectual que só mostrou à falta de uma análise mais criteriosa sobre o Brasil. Mas que Brasil? De tudo foi discutido, menos o que deveria interessar ao povo Brasileiro.
E por falar em nossa pátria, é preciso lembrar que uma das causa principais da desgraça intelectual que vivemos neste momento é justamente esse processo sistemático da destruição da razão, ou seja, um avanço que desde os tempos coloniais tem como prerrogativa, ensinar somente aquilo que as classes desejam que os demais, reles mortais, devam aprender. Ou você acha, caro leitor, que o processo educacional, algum dia aqui foi realmente democrático?
Vou lembrar vocês que os primeiros invasores destas terras, os portugueses, pensaram muito bem como deveria ser o processo educacional, e este mesmo foi sendo continuado pela república e quando em meados de 1960 pensou-se em reformas de base, no Governo João Goulart, vocês já sabem o que aconteceu.
Com o início dos meios de comunicação, a expansão dos livros, em meados dos anos 30, 40 e 50, houve uma espécie de um achamento do Brasil, ou seja, as pessoas começaram a conhecer um país de dimensões continentais, não só por meio do rádio, mas por meio da literatura. Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, Jorge Amado, são apenas alguns dos nomes que devemos as mais belas descrições de um certo realismo brasileiro, do qual, parecia ser muito distante.
Com a expansão do rádio, televisão, e principalmente, das redes sociais, a noção que tínhamos de fronteira foi quebrada e agora sabemos em tempo real as coisas, seja de onde quiser. O saber e as informações também foram expandidas de forma vertiginosa.
Porém, tenho a impressão que o saber disponível historicamente não está sendo democratizado da maneira que deveria ser, basta notar a expansão desta miséria da razão que disse anteriormente e o avanço sistemático daquilo que chamei de doxografia e que resgato dos antigos, em específico, do mestre Platão que, para o qual, a doxa estaria no mundo do erro, da ilusão e do engano e portanto, da opinião.
Lembremos o texto clássico de Antônio Candido, O direito à literatura. Os homens brasileiros, em tempos de avanço de um certo fascismo, não têm sequer direito ao básico para manutenção da vida, quanto mais à literatura. E por este exemplo básico, já temos ideia de como se forma a leitura dos homens. No caso, se pensarmos em termos Freireanos, veremos que a leitura do mundo de grande parte destes homens reflete o pensamento da classe dominante.
Mas qual a razão de estarmos neste mundo da opinião?
Vamos lembrar aqui o velho Marx e seu ensinamento: “ as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante”.
O que isso significa?
As ideias não nascem do nada, não brotam em nossa consciência por meio de intuição, ou inspiração, nem tampouco, o que lemos ou defendemos, é produto de nossas escolhas. Somos seres sociais, vivemos em sociedade e não somos um Robson Crusoé. Portanto,nossa maneira de ser e estar no mundo tem influência, e é justamente isso que precisamos saber.
Agora, você sabe porque você defende o que você defende?
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