Um ser a destruição do ser: sobre a causa palestina.

 

Edward Said arremessando uma pedra contra uma torre de vigia israelense na fronteira com o Líbano em 2000.


I

Começo dizendo que se faz mais do que necessário a filosofia pensar os problemas contemporâneos. Em específico, nós latino americanos, brasileiros, colonizados até o último fio de cabelo, não temos o costume de pensar com a própria cabeça. Eu mesmo durante décadas, desde minha entrada na graduação, até o doutorado, pensei com a cabeça dos outros. Formei-me com um PHD nos Estados Unidos, uma formação sólida, mas fraca no que diz respeito à causa brasileira/latino americana. Somente após o doutorado comecei a entrar em contato com obras que explicam nossa região. Isso é um exemplo de colonialismo! 


Claro que a questão colocada aqui rende pano pra manga. O que seria pensar com a cabeça dos outros? O conhecimento ao longo dos anos não é fruto de inúmeras interações entre os homens? E como seria possível pensar com a própria cabeça? 


Começo a dizer que pensar desta maneira colocada anteriormente é assumir-se enquanto sujeito da própria história. Até o momento nos colocamos como atores sociais que não desempenham autoria em quase nada. Pois, ainda sendo filho de uma formação de departamento ultramar, esta síndrome de vira-lata nos impede de elaborar nossos próprios registros e assim ousar a si mesmo na elaboração de qualquer registro. 


O que quero fazer aqui é um exercício demasiadamente difícil, mas permito-me a isso. Pensar a questão da causa palestina sob o ponto de vista filosófico. Uma filosofia que se faz prática e diante do genocídio que vem ocorredo se necessário uma pequena construção, de modo a contribuir para a expansão do pensamento que se faz ação, e não somente um pensamento que se faz pensamento.  




II


Começo minha exposição com o seguinte dado, observado de maneira cotidiana.


Desde o início do genocídio contra o povo palestino promovido pelo Estado Nazisionista de Israel, ou seja, desde a primeira Nakba até os dias atuais, o número de mortos é incalculável. Sendo assim, como é possível chamar isso de “guerra” ou falar abstratamente de violência de dois lados?


Edward Said tem uma citação interessante retirada de Weitz, uma espécie de diário bem elucidativo sobre a questão exposta aqui. 


“após a Segunda Guerra Mundial, a questão das terras de Israel e a questão dos judeus foram levadas para além do contexto do “desenvolvimento” entre nós mesmos. É preciso que fique claro que não há espaço para dois povos neste país. Nenhum “desenvolvimento” nos aproximará de nosso objetivo, que é ser um povo independente neste pequeno país. Se os árabes deixarem o país, ele será grande e vasto para nos. Se os árabes ficaram, o país continuará acanhado e miserável. Quando a guerra acabar e os ingleses tiverem vencido, quando os juízes estiverem sentados no trono da lei, nosso povo levará até eles suas petições e reivindicações; e a única solução é a terra de Israel, ou ao menos a Terra de Israel ocidental, sem árabes. Não há margem para concessões nessa questão!  


Se você é uma pessoa preocupada com o que ocorre no mundo e lê atentamente os fatos, sabe que esta narrativa sobre a guerra de Israel contra  o Hamas é falsa.  Eis a primeira questão que deve ser posta. Trata daquilo que o historiador Ilan Pappe chama de limpeza étnica. Ou seja, um processo sistemático de destruição de um povo, de sua vida, sua história. Transformá-lo em um não-ser. 


Nossa mídia ocidental tem utilizado cada vez mais a bandeira de Israel. Um país que há pelo menos 75 anos vem fazendo aquilo que o historiador Ilan Pappe chama de limpeza étnica. Ou seja, acabar/matar um grupo étnico, considerado inferior, logo, portanto, destituído de humanidade em detrimento de outro grupo considerado civilizado, humano e bem educado. 


Os palestinos cotidianamente têm sido vítimas de um argumento que não se verifica na realidade. O tal da terra prometida, os filhos de Sião. Para isso, estão fazendo o que for necessário para limpar por completo os árabes palestinos de suas terras. 


Das inúmeras guerras que há no mundo, o “estado de Israel” se utiliza das inúmeras formas de ideologias para enganar seu povo. Por meio dos Aparelhos ideológicos do Estado, sua burguesia vem promovendo por meio da educação e propaganda ensinamentos que atravessam livros didáticos uma história distorcida e repleta de invenções sobre o passado.  Ou seja, desde a tenra infância ensinam as crianças e jovens a serem reacionárias e alimentam o ódio dia a dia. 


III


Mas não é somente isso. O pacto da mídia sobre a causa palestina é inexistente. O que existe é a luta de Israel contra o Hamas. E a partir desta perspectiva há um movimento tático: o recorte da história e a leitura completamente maniqueísta sobre a luta. Israel sendo o bem da história e o Hamas, os maus. Vejam que interessante. Nesta narrativa, os palestinos sequer aparecem. São negados desde o início da notícia. Com isso, são ignorados. 


É com esta visão, muito bem elaborada e sobretudo tática, que grande parte das pessoas fazem suas cabeças e transmitem este saber a outros. Formando uma rede interminável de refrações da realidade.


A pergunta a se colocar é: como é possível chamar de guerra uma ação que historicamente é fruto de um processo colonizador e racista? Sim. O estado de Israel nasce e nasceu sob o pretexto de um projeto nacionalista que, em sua raíz, para poder existir e prosperar, foi preciso colonizar, matar e apagar da memória qualquer resquício envolvente sobre a Palestina. 


É esse o ponto central da causa Israelita. Construir um Estado Judeu para Judeus. E para que isto aconteça é necessário um forte processo de desumanização israelense para com o povo Palestino. É neste contexto que a escola se mostra um grande Aparelho ideológico do Estado com inúmeras narrativas sobre os Palestinos.


Edward Said nos mostra em sua obra  a causa Palestina que, “a literatura infantil está repleta de judeus corajosos que sempre acabam matando árabes traiçoeiros e inferiores, batizados de Mastoul (louco), Bandura (Tomate) ou Bukra (Amanhã). Como disse um jornalista do haaretz, em 20 de setembro de 1974, os livros infantis “tratam do nosso tema: o árabe assassina judeus por prazer, e o garoto judeu puro que derrota “o canalha covarde!”. 


São essas ideias que produzem livros para consumo em massa. Tais ideias são consequência de um Estado racista,  colonialista e conivente com tais processos. 


Veja. Acima de tudo o que há é um ideal civilizatório, onde o árabe, visto como um selvagem sem humanidade que precisa ser eliminado do espaço que ocupa. 


O Estado Sionista não deixa suas ações tão à mostra. Se valem da religião e se apropriam de uma narrativa refratada para avançar em seus propósitos. 


Pelo exposto aqui, já sabem os objetivos Israelenses. Como disse o historiador Ilan Pappe, trata-se de uma limpeza étnica que ocorre desde a falsa fundação do Estado de Israel, que é a mais brutal violência transformada em cotidiano. Mas como há uma parafernália de aparelhos ideológicos do estado,  a grande maioria não se importa com o que ocorre por lá. Muitos cidadãos ao redor do mundo culparam o Hamas como o grande culpado. 


Mas caros e nobres leitores. Pensemos o seguinte. Imaginemos que o Hamas tenha feito a barbaridade que fez. Analisando todo processo histórico da questão palestina, não seria um direito do povo palestino reagir diante de décadas da violência sistemática que estes homens vêm sofrendo ao longo dos anos?  


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