O QUE RESTA DA DITADURA?






I



Começo com um questionamento necessário, urgente e preciso. A pergunta levantada por Tales Ab’Saber foi trazida por Paulo Arantes em seu livro, Novo tempo do mundo, em específico no texto chamado 1964, aliás, um livro de suma importância para compreensão do mundo contemporâneo. O questionamento é o seguinte: O que resta da ditadura? Paulo Arantes responde da seguinte maneira: tudo. Menos a ditadura. Pois bem, este é o nosso ponto de partida das reflexões. 


Já adianto ao nobre leitor acostumado com exegese de textos filosóficos que, este exercício aqui não será feito. As reflexões de Paulo Arantes são meramente um ponto de partida para desdobramentos de outras reflexões. 


II


Mesmo após 21 anos, a retomada da “democracia” deixou algumas heranças, uma espécie de presente de grego aos troianos. A participação dos militares no processo democrático, suas ameaças na construção dos artigos da constituição, demonstram muito bem que desde o início da república, militares vem “participando” na construção sociopolítica do país. 


Evidente que o advento da democracia foi o resultado importante e possível diante dos desafios e circunstâncias daquele momento histórico. Mas é preciso entender de maneira profunda o questionamento colocado por Paulo Arantes no início do texto. Sem isso não vamos compreender o processo. 


Como vocês sabem, é preciso escrever novamente, nem que seja mil vezes. Diferente de nossos hermanos, nós não punimos os criminosos da ditadura. Morreram de velhice. O documentário Em busca de Anselmo, e Argentina: 1985, são exemplos cabais de como esses dois países lidaram com seus passados. E cabe dizer. A maneira como lidamos com isso, de forma descuidada nos legou uma geração que não soube o que foram esses 21 anos. E isso significa dizer: a ditadura formou uma geração. Se analisarmos de maneira atenta outro filme, Dedé Mamata, há uma bela representação dessa juventude sequelada e sem horizontes utópicos que parece teimar estar bem presente nos tempos atuais. 


III


Este desleixo em relação ao nosso passado, não só isso, mas todo patrimônio imaterial brasileiro,  têm resultados significativos à resposta e pergunta colocada no início do texto. Pois a geração que se formou nestes anos de chumbo, através da televisão e sobretudo do rádio, teve uma visão de mundo construída que olha com uma certa indiferença o passado. Alguns sequer têm noção da exata medida desse passado. Não sabem de fato o que houve e às vezes tratam este mesmo tempo de maneira nostálgica, como se naqueles 21 anos fossem repletos de ordem e progresso. 


Mas é justamente este imaginário social que se mostrou no ano de 2013 e 2014 iniciou-se ali processo de ressuscitação de um tempo supostamente glorioso que deveria ser, na verdade, destruído. 


Mas não foi. 


A direita, que nunca deixou de existir, mostrou sua cara novamente. E sem vergonha de dizer a que veio, iniciou-se ali uma ruptura com qualquer noção do estado democrático de direito. Seus discursos deixaram a entender para qualquer um a que vieram. Resgatar uma história criada em suas próprias cabeças, revisar de maneira geral tudo, as instituições, economia, moralidade, religião, era o objetivo deles. E ainda continua a ser. Pois, mesmo com uma suposta esquerda pra lá de reformista no governo que dialoga até com fascistas, eles estão organizados em suas redes sociais, e criando centros de formação a todo vapor. O resultado das manifestações de 2013 foi um giro de 90 graus que parou à direita e cinco anos depois se aprofundou e caiu no colo da extrema direita. 


Cair é um modo de dizer. Na história sabemos que as coisas não acontecem assim. 


Mas, o resultado de 2013 mostrou que aqueles 21 anos de ditadura ainda estavam mais do que vivos no imaginário social daquela juventude. Significa ser uma nova utopia? Não! Mas lembremos. Trata-se de medidas organizativas de uma pequena burguesia que, em momentos de tensão, recorre-se ao fascismo para garantir seus privilégios. 


E é exatamente o que vêm acontecendo. O avanço de bandeiras reacionárias ao redor do mundo e à volta de um sentimento nostálgico à ditadura.


Foi neste momento que os pedidos de volta à ditadura, negacionismo histórico e científico começaram a se estruturar. Foi neste momento que a esquerda perdeu completamente o horizonte utópico do momento e preferiu, - desde a retomada democrática, - fazer as coisas dentro da ordem burguesa. Foi assim que ocorreu a retomada da democracia em 85 e perdura até os dias atuais. Tentaram estabelecer uma espécie de capitalismo humano, o que é uma fantasia completa, mas não vingou. Pois as bandeiras de justiça social e sobretudo, igualdade, não foram alcançadas e tais fracassos deram margem para “novos discursos” que prometiam mundos e fundos e que diante do aparato dos Aparelhos ideológicos do Estado, fizeram sentido completo para aquela juventude que gritava contra tudo e todos. 


Quase ninguém percebeu. Mas algo estava fora dos trilhos. Aqueles protestos foram para direita. Aquela revolta que poderia ser transformada de maneira radical, transformou-se numa volta a coisas que a velha guarda nunca imaginou. 


Fico pensando neste contexto difícil de negacionismo e de volta ao reacionarismo. Como deve ser duro para quem viveu na pele aquele momento e vivo nos dias de hoje para ver a defesa de tempos reacionários. Como se toda aquela experiência vivida não tivesse existido e o que foi experienciado naquele fosse uma falsidade. 


Mas, coloquemos a seguinte questão: porque à volta de tempos sombrios? Por que à defesa incondicional do ser em um não ser? 


Como um ser que vive nas periferias de São Paulo, escuto muitas pessoas nas ruas que, diante de seus discursos, somado às leituras ao decorrer dos anos, há a possibilidade de apontar dois caminhos para entender porque ainda resta tudo da ditadura, menos, obviamente, a ditadura. 


Primeiro: as pessoas anseiam mudanças. Mas o reformismo de “esquerda”  somado às iniciativas dos aparelhos ideológicos do estado formaram uma geração. 


Segundo: O discurso supostamente “radical” da direita, somado às iniciativas dos Aparelhos ideológicos do estado, o abandono da formação de base nas periferias, formaram uma geração de “conservadores”. 


Estas duas ações demonstram muito bem a resposta à pergunta que foi colocada no início deste texto. Este tudo que a ditadura nos legou podemos ver seus resquícios no judiciário, entre os militares, o parlamento e em grande parte da população brasileira. 


Este é o tudo.


Um tempo que estava sendo gestado desde o momento em que os culpados por torturas, assassinatos, e exílio, nunca foram punidos. Morreram de velhice e recebendo suas gordas aposentadorias do estado. 


Para encerrar. O grande jogo da direita em demonizar a esquerda tem um objetivo talvez não muito percebido por muitos de nós. Controlar o passado, de modo a criar uma narrativa sobre os fatos históricos. E convém dizer: quem controla o passado, controla o futuro, e acrescento, destrói a memória. George Orwell indica claramente o que está em jogo quando a questão é elaborar o passado. Por esta razão, é mais do que necessário e urgente uma educação que leve sistematicamente em consideração este tempo nebuloso de nossa história, de modo que as novas gerações possam ao menos saber o que realmente aconteceu nestes 21 anos de tanta destruição. 



Link para download gratuito do livro: 60 anos do golpe: Gerações em luta;

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