Por que elaborar o passado? Educação, memória e esquecimento.
Manifestantes identificados por agentes da repressão em protesto ocorrido em 1968, em São Paulo, contra os acordos MEC-Usaid
I
O Brasil não foi capaz de elaborar seu passado. Refletindo sobre as causas do golpe de 1964 que, levaram milhares de pessoas a prisão, exílio, tortura e morte, temos um atual processo de esquecimento na sociedade administrada, seguido de completa refração. O que os brasileiros buscavam com a lei da anistia era esquecer a barbárie de maneira lenta, gradual e segura. Temos uma história não contada. Temos uma memória não recobrada. Temos uma história que está jogada debaixo do tapete.
Aquela época foi marcada por um alto processo de anticomunismo. Um delírio coletivo, cujo resultado foi a expansão do medo, censura e opressão. Os vermelhos iam invadir nossas casas e tomar nossos móveis. Isso soa tão atual. Por que será? O que os Estados e cidadãos do bem queriam apagar era o perigo vermelho promovido pela URSS e pela revolução cubana. Esse era o discurso da ideologia militar, religiosa, cidadã e empresarial.
Como bem apontou o filósofo Theodor Adorno (1995, p. 29): “O gesto de tudo esquecer e perdoar, privativo de quem sofreu a injustiça acaba advindo dos partidários daqueles que praticaram a injustiça”. Devemos lembrar que, com a criação da lei de Anistia (1979) a República federativa do Brasil cedeu espaço para filhotes da ditadura atuarem nas esferas do poder sem nenhuma cerimônia. Foram incorporados à nova ordem vigente e seguem defendendo os mesmos princípios de outrora. E este resultado de ações acordadas chocou novamente o ovo da serpente. Em verdade, penso que este esquecimento foi um ato de jogar a sujeira debaixo do tapete e não limpar mais. Fingir que o espaço estava limpo.
Mas não estava.
Como relatou o filósofo Paulo Arantes em seu texto que se chama simplesmente 1964, este se pergunta, o que resta da ditadura? A resposta é franca e direta. Tudo. Menos a ditadura! Esse tudo ficou evidente a partir de 2013, momento das manifestações a nível nacional que mostraram uma certa direita reacionária em evidência. Característico de irracionalidade, medo do comunismo e questionamentos sem fundamento de todo tipo de esquerda.
Um brasil apequenado estava ressurgindo. Ressentido, odioso e autoritário.
A resposta de Paulo Arantes parece absurda em si mesma, mas não. Temos uma estrutura e comportamentos que afirmam seus dizeres. Há vários indivíduos atuantes em cargos importantes na república que, cientes do que foi 64, defendem a causa de peito aberto. Nossa estrutura educacional e um certo saudosismo ainda são reinantes. E o que dizer das milícias e da polícia militar? Com o avanço da extrema direita, eles se sentiram legitimados para atuarem como se estivessem em um estado de exceção. E em certos momentos, a história parece dizer que estão. Afinal de contas, agem como se estivessem acima da lei, ou como muitos policiais ao entrarem em ação nas periferias preferem se sentir, como se fossem a lei.
Este passado elaborado, fruto de reações psíquicas não trabalhadas, tende a dizer “mas quem morreu na ditadura militar estava fazendo arruaça. Quem trabalhava e não pensava nestas coisas não era perseguido”. E por mais que achamos absurdo tais falas, elas são muito comuns e ainda fazem parte do imaginário de muita gente. Basta fazer um pequeno exercício antropológico e verás a veracidade de tais falas.
Com o “fim da ditadura”, ainda que de maneira formal para quem mora nas periferias, o imaginário repleto de mitologia ainda está sendo capaz de formar muitas consciências. Cheias de si, com um realismo impressionante da sociedade capitalista que pensa apenas no presente e em suas metas diárias.
Para usar um termo do romance de Ian Macween, trata-se de um pensar pequeno. Um enfraquecimento da consciência histórica e do eu que vem sendo legitimado diariamente pelos aparelhos ideológicos do estado. Ou seja, ações que tendem a deformar a visão das pessoas em relação ao mundo e a vida. Legitimando o sistema capitalista e toda sua engenharia. Com isso, até os que mais sofrem com as ações opressoras do mundo do capital, acabam o defendendo, sem ao menos desenvolverem certa criticidade. Pois esta está ausente em questão. Não há questionamentos, há apenas movimentos legitimadores de ações opressoras.
Um belo exemplo desta questão é fazer uma pesquisa simples para verificação e constatação. Como as pesquisas de opinião de época sobre João Goulart. Quando perguntados sobre seu governo e as reformas de base, muitos em certo sentido apoiam, mas quando o assunto é o perigo vermelho, ou seja, a invenção de um fantasma muito bem elaborado pela mídia e explorado por inúmeros políticos ao dizerem que Goulart pretendia transformar o Brasil em uma ditadura comunista, a maioria das pessoas votaram contra. Isso explica em grande medida que João Goulart foi deposto por esta invenção. Uma ideologia poderosa, capaz de deturpar muitas consciências e instituições de um país. E mesmo em condições precárias, o fantasma do comunismo foi relevante para o apoio do novo regime que surgiu a partir de 1964.
A falta de elaboração e rememoração desse passado, traz em si o abandono do patrimônio cultural brasileiro. Isso ocorre não de maneira proposital, mas inconscientemente. Na medida em que se desconhece a produção simbólica do país, seus significados ficam à deriva, como uma espécie de Ulisses que tenta enlouquecidamente voltar para Ítaca, mas devido às inúmeras circunstâncias, não consegue voltar. É assim a impressão que tenho de nós brasileiros. Uma busca que não vai a canto nenhum.
De agora em diante, vamos entender os seguintes temas para responder a seguinte questão: onde estávamos em 64 e onde estamos em 2024? Tais questões servem como farol para entender os seguintes conceitos: educação, memória e esquecimento.
II
Passamos por 21 anos de ditadura que torturou, matou, exilou, determinou o destino de muita gente, perdendo seus cargos, desapareceram do dia pra noite e além disso, formou uma geração. Afinal de contas, nem todos sabiam que estávamos vivendo este estado. E isso explica muita coisa. Regiões afastadas dos grandes centros sofreram por dois fatores: falta de desenvolvimento tecnológico, científico e sobretudo, industrial e educacional. O documentário de Leon Hirszman, A maioria absoluta, é um exemplo ímpar neste aspecto. Outro exemplo pode ser visto nas memórias de Celso Furtado sobre as consequências do golpe. O texto O golpe de 64 e o nordeste é um retrato fiel de quem viveu na região e fez ações para reverter o quadro de miséria em busca de desenvolvimento. Mas com o golpe de 64 houve um freio neste processo. Um plano no governo Goulart, encabeçado por Celso Furtado, foi simplesmente encerrado. Sudene. Transformou-se em uma espécie de elefante branco. Com isso, o nordeste que estava em ascensão, que tinha produções artísticas descritivas sobre o país, se viu abandonado nestes 21 anos. Motivo? Para os americanos, financiadores do golpe, a região estava propícia a levantes populares e portanto, era necessário cortar este avanço político, cultural e democrático.
Foi nesta mesma região que houveram belíssimas manifestações da literatura. Raquel de Queirós, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos. Enfim, a lista é longa. E o que dizer das ligas camponesas? Francisco Julião. Na lei ou na marra. É este o medo das elites dominantes. Achavam que o nordeste era um campo propício para o Brasil se tornar uma Cuba. Um ledo engano. Países diferentes, culturas diferentes e interpretações diferentes. Mas não foi bem assim a história. Muita gente da esquerda voltou de seus treinamentos em Cuba para utilizar as mesmas táticas aprendidas naquele país. A intenção foi boa, mas foi um erro a cópia do modelo. Pois, somos um país de dimensões coloniais e aqui não é uma ilha. E isso só foi percebido, creio eu, muito depois do término dos anos de chumbo. No calor do momento não houveram possibilidades de reflexões críticas. Isso só é possível mediante o voo da coruja de minerva. No meio do tufão, impossível.
Há de se dizer. Um país com dimensões continentais possui vários países dentro de um país. Cada qual com seu linguajar, sua cultura e suas manifestações. O resultado disso é: tratar o país de maneira unívoca, impossível. Havia lugares em que as pessoas nem sabiam da existência da ditadura. E por vários fatores ocorreram este desconhecimento: econômico, político, social e sobretudo ideológico.
O filme Maioria absoluta, é bem ilustrativo. Mostra uma realidade, na qual as pessoas, empobrecidas, mal têm acesso ao básico da vida, quanto mais aos processos de alfabetização que, em grande medida, as permitia viverem às margens da sociedade brasileira. Pois, a educação, como o caro leitor deve saber, é um processo ideológico. Há inúmeras significações no ato de ensinar e este, não é neutro.
Se verificarmos o grau de poder ideológico do capital, este pode ser facilmente medido. Observe quantas pessoas sabem de fato o que foi a ditadura militar. Quais as causas e suas consequências. Isso parece ser assunto de gente especialista. Mas não é, se tornou devido aos processos e mecanismos dos aparelhos ideológicos do estado. O resultado só pode ser a gestação do esquecimento e criação de uma memória inexistente, cuja significação é baseada única e exclusivamente na construção de uma refração repleta de revisionismo histórico.
Esse poder, passado décadas após a ditadura militar, ainda está plenamente assentado na sociedade brasileira de maneira a perdurar. Pois, o que vemos é um avanço do reacionarismo, revisionismo histórico e negacionismo. Uma ideologia, cuja implantação se dá desde a tenra infância, o que acaba sendo incutida nos inconscientes das pessoas. Uma ideologia que não fica na consciência, muito pelo contrário, fica no inconsciente, em que homens, mulheres e demais agem sem ao menos pensar, como se o mundo do capital fosse algo dado da natureza. Mas quem nesta sociedade, desse jeito consegue perceber realmente as nuances e artimanhas do capital? Será que um educador, realmente comprometido com os mais pobres, percebe tais variações? Podemos até sentir, pensar em tudo isso, mas nossas ações não refletem o que pensamos, em grande medida. Só surtem resultados contrários, cujo objetivo central é a legitimação do capital, suas variações e suas nuances.
Alysson Mascaro, em uma fala feita em algum canto que não me lembro exatamente onde ouvi, mas que faz muito sentido para uma compreensão aprofundada da ditadura militar e suas variações nazifascistas. Diz que não é possível falar de fascismo sem falar do capital. E concordo com Alysson. Estes são irmãos gêmeos, onde um não vive sem o outro. E o maior exemplo disso é quando o fascismo surge. São momentos específicos, de crise, onde o poder do capital está sob ameaça, não necessariamente uma luta política, mas momentos mesmo.
Na ditadura brasileira foi assim que aconteceu. Havia um certo avanço de setores específicos da cultura e demais movimentos políticos. Uma certa expansão da consciência que foi bruscamente interrompida. Não se tratava de um movimento revolucionário, mas sim de uma onda de manifestações políticas e culturais que modificaram as estruturas do país, mas foram interrompidas de maneira abrupta. Os resultados de tais ações estão espalhados de maneira nítida até dos dias atuais. Uma espécie de esquecimento premeditado coletivo perdura entre os mais velhos, e entre os mais jovens, uma certa deficiência social cognitiva, feita pelos aparelhos ideológicos do estado que fazem o serviço de maneira exímia. O resultado é a defesa de formas de vida que, em instante algum, questionam a legitimidade do capital.
De fato, o poder da significação sobre as coisas foi uma das ações mais significativas naquele tempo. E ainda continua sendo, justamente pelo seu poder de organização e resultados. Legitimadores em si, e detratores de todo tipo de ações que venham questionar o mundo do capital, contribuem significativamente para a destruição da memória e consolidação de um novo tipo de conhecimento muito em voga nos dias de hoje, mas que desde os tempos de 64 e se fizermos uma análise mais profunda já existia: o negacionismo e construção de uma nova história.
É neste contexto que podemos falar do papel da memória e esquecimento. Pois ambos nos dias de hoje andam juntos, mas creio que há uma vantagem do esquecimento sobre a memória. E nem preciso de dados tão precisos assim para confirmar a premissa: basta você sair às ruas e perguntar para qualquer um qual foi o motivo da existência da ditadura militar? Poucos saberão a resposta e isto é um indicativo que Leon Hirszman coloca muito bem em seu documentário chamado Maioria Absoluta. Um processo educacional voltado para a destruição de toda e qualquer formação humana geral. Algo extremamente alienante.
Outro fator de extrema importância que devemos lembrar é: além dos assassinos e torturadores da linha de frente não serem julgados, muitos voltaram ao governo com novos cargos defendendo anos depois as mesmas pautas. Como lembra Hannah Arendt, (1999, p. 27), uma citação referente ao povo alemão, mas suas palavras servem diretamente a nós brasileiros “A atitude do atitude do povo alemão quanto ao seu próprio passado, sobre a qual os especialistas na questão alemã haviam se debruçado durante quinze anos, não poderia ter sido demonstrada com mais clareza: as pessoas não se importavam com o rumo dos acontecimentos e não se incomodavam com a presença de assassinos à solta no país, uma vez que nenhuma delas iria cometer assassinato por sua própria vontade, no entanto, se a opinião pública mundial – ou melhor, aquilo que os alemães chamavam de Ausland, reunindo todos os países estrangeiros num único substantivo – teimava e exigia que aqueles indivíduos fossem punidos, estavam inteiramente dispostas a agir, pelo menos até certo ponto.”
Ninguém agiu. Perdurou o esquecimento e estamos colhendo os frutos.
Comentários
Postar um comentário