DEPRESSÃO E SINTOMA SOCIAL





Os transtornos depressivos na psicanálise são caracterizados basicamente pelo humor do deprimido, onde a perda de interesse e prazer acompanham uma sensação de tristeza, desesperança, acompanhados muitas vezes de uma sensação de inutilidade. Nesta lógica, o suicídio é um constante problema, dado que os pacientes deprimidos, dependendo das causas, sejam externas ou internas podem agravar o quadro pelo qual o indivíduo está passando naquele momento. 


Cerca de dois terços dos deprimidos pensam em se matar, e de 10 a 15% efetivamente cometem o suicídio. De fato, suicidar-se é um problema eminentemente filosófico. Pois, o que faz um indivíduo tirar a própria vida? 


Uma característica central dos pacientes deprimidos, é que praticamente todos se queixam de uma diminuição de energia, dificuldade de terminar tarefas, comprometimento do desempenho na escola, trabalho e falta de motivação para assumir projetos. 


Outro fator que acompanha esses pacientes é a questão da insônia. Frequentemente despertam de madrugada, com múltiplos despertares, pois muitas vezes não conseguem desligar de seus problemas durante o dia. 


De acordo com os estudos de psicanálise existem duas entidades clínicas relacionadas apenas à depressão: o transtorno depressivo maior, o transtorno distímico, estando a depressão presente nos distúrbios bipolares. (Psicanálise Clínica, p.20, 2021)


II 


Desde que iniciou os casos de depressão em meados dos anos 70, começa ao mesmo tempo a prosperar as ideias da Escola de Chicago e é a partir daí que inicia-se uma nova reorganização no campo da economia que vai desembocar no comportamento das pessoas e na maneira destas lidarem com seus projetos de vida.   


No Brasil, a depressão é um problema muito sério. De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS),  a doença afeta 5,8% da população, um índice maior que a média mundial (4,4%). Nas Américas, o país só fica atrás dos Estados Unidos, com 5,9%.


Se analisarmos esses dados por si só, eles não dizem nada. Porém, se verificarmos as consequências e os mecanismos que desencadeiam as ações, verão que há diversas causas que são motivos impulsionadores e que vão contribuir de maneira significativa para desencadear a doença. 


O psicanalista Christian Dunker nos fornece elementos valiosos e que explicam em partes o surgimento desta psicopatologia.


Dentre as inúmeras explicações, destacamos: 


  1. Transformações da vida laboral: No Brasil, acontecem de uns dez anos para cá. Interrompendo um ciclo de alta mobilidade social - com muitas pessoas passando da pobreza para a classe média, da condição de miseráveis para a condição de pobres. Essa ascensão projetou uma perspectiva de continuidade de crescimento, o que não se revelou, ou seja, houve uma idealização de criar novos horizontes, e ao vê-los que tais idealizações não se concretizaram, concorrem para a experiência de depressão.  

  2. Modos de criação e compreensão da família brasileira. Nitidamente que está havendo mudança em torno de seu lugar social. Isto porque uma das causas levantadas pelo autor é o graus intenso de politização que há nos últimos anos e ao mesmo tempo que surge uma nova forma de religiosidade, como o neopentecostalismo de resultados, que estimula fortemente a orientação para o sucesso. 

  3. Consumo de redes sociais: Ironicamente, nosso país é um dos que mais consomem redes sociais e também é o país que está acima da média no número de casos de depressão. Este consumo está associado ao aumento de sentimento de solidão, com certas crises narcísicas, especialmente, aponta Dunker, o reconhecimento pouco deformado das diferenças sociais que a gente tem no país. 

  4.   Má distribuição de renda: Como é sabido, nosso país é um dos países que têm a pior distribuição de renda, não só do ponto de vista financeiro, mas também cultural e social. A este respeito (cultural) Antônio Candido escreveu o belo ensaio O direito à literatura. 

  5. Essa grande desigualdade  demonstrada nos péssimos índices sociais aprofunda ainda mais as causas da desigualdades legitimadas pela ideologia do mérito, dos fracassos individualizados, da educação como forma de prosperidade que foram seriamente abalados nos últimos anos. 

III


Os discursos neoliberais têm como características fundamentais a encarar a ideia de fracasso de maneira individualizada — esta é uma das formas de crise dos últimos anos em que os horizontes prometidos deixaram de ser cumpridos. 

Outro elemento importante a se destacar são as questões relacionadas à ascensão do neopentecostalismo, com igrejas vendendo a ideia de prosperidade. Tais ações vão na mesma via do discurso neoliberal que tendem a individualizar todas as ações. Inclusive o adoecimento psíquico. 


***

BIBLIOGRAFIA 


DUNKER. Christian. Uma biografia da depressão. (Livro eletrônico) São Paulo..Editora Planeta. 2021. 


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